
Existe uma ironia fascinante na forma como o ser humano decide catalogar o tempo. A Organização das Nações Unidas, em toda a sua infinita sabedoria e burocracia global, decidiu em 2018 que o dia três de junho seria oficialmente o Dia da Bicicleta. A justificativa oficial é nobre, daquelas que ficam ótimas em relatórios impressos em papel reciclado: reconhecer a longevidade, a singularidade e a versatilidade desse meio de transporte. A bicicleta é um símbolo de mobilidade sustentável, uma ferramenta que promove o crescimento econômico, reduz a pobreza e, de quebra, não joga fumaça na cara de ninguém. Tudo muito correto. Tudo muito adulto.
Mas vamos falar a verdade em uma mesa de bar virtual. A necessidade de criar um Dia da Bicicleta não surgiu de planilhas de emissão de carbono. Ela surgiu porque a bicicleta é, para quase cem por cento de nós, a primeira experiência palpável do que significa a palavra “liberdade”. Antes das chaves do carro, antes do primeiro salário, antes de podermos fechar a porta do quarto na cara do mundo, existia o equilíbrio precário em cima de um quadro de metal.
Quando paramos para pensar na origem da bicicleta, lá no século dezenove, com aqueles modelos bizarros sem pedais onde as pessoas basicamente corriam sentadas, fica claro que a humanidade sempre teve uma urgência desesperada de ir um pouco mais rápido do que as próprias pernas permitiam. E essa urgência continua viva. Só que, na infância, a história ganha contornos de drama shakespeariano.
Eu confesso que não tenho a menor ideia de qual foi a minha primeiríssima bicicleta. Aquela das rodinhas, de plástico resistente, provavelmente foi apagada da minha memória pelo trauma de algum joelho esfolado no asfalto quente. Mas existe uma bicicleta específica que marcou a minha existência. E o mais engraçado é que o marco inicial dessa relação foi a mais pura e cristalina decepção infantil.
Como toda criança dos anos noventa e começo dos anos dois mil, eu era uma vítima consciente do marketing. Eu tinha um modelo muito específico na cabeça. Eu queria uma bicicleta imponente. Mais precisamente, eu cobiçava uma daquelas máquinas que vinham com amortecedores na roda traseira. Na minha cabeça de criança, aquilo não era apenas um sistema de suspensão; era o auge da tecnologia aeroespacial. Quem tinha amortecedor traseiro não andava no asfalto, flutuava sobre os problemas da vida. Era o status supremo da rua.
E então veio a data comemorativa. O embrulho enorme. A expectativa acelerando os batimentos cardíacos. O papel rasgado com violência. E o que eu vi? Não havia amortecedores. Não havia uma estrutura robusta de mountain bike. Havia um quadro vermelho, um design levemente peculiar e uma trava de metal bem no meio do chassi. Eu havia ganhado uma bicicleta dobrável.
Quem nunca ganhou algo diametralmente oposto ao que pediu que atire a primeira pedra. A vida é especialista em nos entregar meias quando pedimos videogames. Naquele momento, olhando para a bicicleta dobrável, eu senti o gosto amargo da derrota. Eu imaginava os meus amigos pulando rampas imaginárias, enquanto eu parecia prestes a embarcar em um trem para o interior da Europa nos anos setenta.

Porém, a maturidade precoce costuma nascer da necessidade. O que começou como uma frustração estética rapidamente se transformou na maior vantagem estratégica que uma criança poderia ter em casa.
Para entender a genialidade disso, precisamos analisar a dinâmica familiar padrão. Sempre que um passeio era anunciado (uma ida à casa da avó no domingo à tarde, um fim de semana na casa de praia, um almoço em um restaurante mais distante), o pedido para levar a bicicleta esbarrava em uma barreira intransponível: a logística. Pais normais olham para bicicletas normais e dizem, com a tranquilidade de quem tem a física a seu favor: “Não cabe no porta-malas do carro. Fica para a próxima”.
Mas não havia “próxima” para mim. Eu tinha uma bicicleta dobrável.
No momento em que eu soltava a trava do meio, dobrava a bicicleta ao meio e a transformava em um pacote compacto de metal vermelho, o argumento dos meus pais desmoronava. Eu havia me tornado o mestre da logística do porta-malas. Não importava quantas cadeiras de praia, sacolas de supermercado ou malas estivessem lá dentro. Sempre havia um buraco para a minha magrela dobrada.
E foi assim que eu acabei adorando aquele presente rejeitado. Porque enquanto os meus amigos com suas suspensões de última geração ficavam limitados ao raio de cinco quarteirões do nosso bairro, eu era um viajante intermunicipal. Eu pedalava no calçadão da praia. Eu explorava o quintal gigantesco da avó. Eu andava nos estacionamentos de restaurantes longe de casa. A bicicleta dobrável me ensinou, muito cedo, que o verdadeiro luxo não é ter o equipamento mais robusto, mas sim o equipamento que você pode levar para qualquer lugar. A verdadeira liberdade em duas rodas não estava no amortecedor, estava na dobradiça.
Nós fomos inseparáveis por anos. Até que a biologia entrou na jogada, como sempre faz, estragando tudo.
Aos quatorze anos, o inevitável aconteceu. Eu havia espichado. A física, que antes era minha aliada no porta-malas, agora conspirava contra os meus joelhos, que batiam perigosamente no guidão a cada curva mais fechada. Foi um dos primeiros momentos de luto burocrático da minha vida. A bicicleta estava inteirinha. Impecável. Aquela pintura vermelha ainda brilhava. Mas não servia mais. Pedi para doar. Uma outra bicicleta, maior, sem o charme da dobradiça, estava a caminho. Entregar a companheira de tantas viagens foi uma rito de passagem doloroso, a prova física de que crescer significa, muitas vezes, deixar para trás aquilo que ainda funciona perfeitamente, mas que não nos cabe mais.
Corta para a vida adulta. A vida na cidade grande, as contas para pagar, as neuroses modernas que nos fazem esquecer a textura do vento no rosto.
Outro dia, caminhando sem rumo, entrei em um desses brechós que cheiram a madeira velha e memórias alheias. Entre cadeiras de balanço e vitrolas empoeiradas, lá estava ela.
Não era a minha bicicleta original, claro. As chances matemáticas de isso acontecer seriam um roteiro barato de filme de sessão da tarde. Mas era idêntica. O mesmo vermelho vibrante. O mesmo protetor de corrente. A exata mesma trava no meio do quadro.
Foi impossível manter a compostura de adulto blasé. Abracei a dita cuja. E pedi para registrarem o momento, que ilustra o absurdo que é o apego humano a pedaços de metal organizados com inteligência. Fechei os olhos encostado naquele banco duro e lembrei, em uma fração de segundo, do som metálico da trava fechando antes de ser jogada no porta-malas de um carro quente a caminho do litoral.
Celebrar o Dia da Bicicleta é entender que, muitas vezes, a vida sabe o que faz quando ignora os nossos pedidos. Nós queremos status, e ela nos dá praticidade. Nós queremos amortecedores para não sentir os solavancos, e ela nos dá uma dobradiça para cabermos onde não éramos esperados.

Para Hoje
Aumente o volume dos fones de ouvido e coloque “Bicycle Race” do Queen. É clichê, é escandaloso e tem a exata energia de alguém que acabou de ganhar/comprar uma bicicleta e tem o calçadão inteiro pela frente.
Conhece alguém que sofreu o trauma de ganhar o presente “errado” que acabou se tornando o favorito da vida inteira? Ou alguém que ainda guarda os brinquedos de infância em algum canto escuro da garagem? Manda esse texto para essa pessoa. Rir das nossas antigas frustrações é mais barato que terapia.
Se você também acha que a vida adulta é apenas uma tentativa frustrada de caber no porta-malas sem amassar as dobradiças, vem me acompanhar. Sempre tem uma reflexão meio torta sobre o nosso cotidiano te esperando nas minhas redes. O link está na bio.
