Existe um fenômeno fascinante na fauna política da internet brasileira que desafia as leis da lógica, da biologia e, principalmente, da dignidade humana. Falo daquele cidadão que se veste de verde e amarelo da cabeça aos pés, mas cujo maior sonho de consumo é ver o próprio país transformado em um estacionamento terceirizado de alguma corporação sediada em Delaware. É o nacionalismo mais exótico do planeta, uma espécie de patriotismo de exportação, onde o amor à pátria se manifesta no desejo ardente de vê-la completamente submissa a qualquer bilionário com um foguete de brinquedo ou uma rede social no bolso.
No cotidiano das redes, essa turma costuma agir como aquela velha colônia de pragas urbanas que se esconde atrás dos armários da cozinha. Você está ali, postando calmamente sobre o orgulho de o Brasil desenvolver sua própria tecnologia, ou comentando a importância de manter nossas riquezas estratégicas sob o controle do povo, e de repente, do nada, surge uma antena se mexendo no canto da tela. Depois outra. Em poucos minutos, a seção de comentários é invadida por uma horda insistente, pronta para explicar que a soberania nacional é uma grande bobagem e que o correto seria entregar as chaves do Palácio do Planalto para o primeiro fundo de investimentos estrangeiro que passar na rua.

A fricção diária com esse tipo de mentalidade é exaustiva porque ela não se baseia em fatos, mas em uma profunda e incurável neurose de inferioridade. Para o entreguista gourmet, o Brasil é intrinsecamente incapaz. Se uma empresa nacional funciona, ela deveria ser vendida; se um cientista brasileiro brilha, ele deveria ter ido para o exterior; se o país decide proteger suas fronteiras digitais ou econômicas, é chamado de ditadura comunista por quem mal sabe a diferença entre o manifesto partidário e a lista de compras do supermercado. É uma insistência em diminuir o tamanho do próprio teto, como se viver de joelhos fosse a postura ideal para contemplar o mercado internacional.
Tentar argumentar com essa linha de raciocínio usando dados consolidados, história econômica ou conceitos básicos de geopolítica é o equivalente a tentar ler poesia para uma parede. Eles não querem debater a soberania nacional, eles querem apenas validar a própria frustração de não terem nascido em uma comédia romântica de Nova York. É por isso que os métodos tradicionais de discussão falham miseravelmente. Você apresenta um gráfico sobre a balança comercial e recebe em troca um meme desconexo sobre venezuelização. Você fala sobre segurança de dados e eles respondem com chavões de coach financeiro do Instagram.
Felizmente, a sabedoria popular e a criatividade do brasileiro médio sempre encontram uma saída para as situações mais absurdas da convivência digital. Recentemente, uma nova alcunha começou a circular pelos corredores virtuais, um termo que carrega em si a quantidade exata de ironia, deboche e realismo político necessária para desmontar qualquer discurso de extrema-direita focado na destruição do nosso patrimônio. Estou falando, claro, da maravilhosa expressão TariFlávio.

O efeito dessa palavra no debate público é algo digno de estudo laboratorial. Ela funciona exatamente como aquele inseticida de lata vermelha que nossos pais guardavam embaixo do tanque. Não há necessidade de textões explicativos ou de engajamento prolongado. Quando um desses defensores do entreguismo desbragado aparece na sua postagem para criar quizumba, reclamar do imposto sobre a fortuna alheia ou exigir que o país abra as pernas para o capital estrangeiro sem contrapartida, você não precisa se estressar. Basta soltar um simples, despretensioso e cirúrgico: “E o TariFlávio, hein?”.
O resultado é imediato. É como acender a luz da cozinha às três da madrugada. A reação química da carapuça servindo provoca um curto-circuito instantâneo na narrativa. Aquela pose de analista geopolítico sênior desmorona em segundos. Eles se agitam, perdem o rumo do teclado e, em um piscar de olhos, fogem exatamente como as baratas assustadas do vídeo que circula por aí, procurando a fresta mais escura do rodapé para se esconder do ridículo.
O humor dessa situação reside no fato de que o entreguismo, no fundo, é uma ideologia extremamente frágil. Ela depende do medo e da sensação de que somos pequenos demais para ditar nossas próprias regras. Quando você responde à tentativa de humilhação nacional com o deboche puro e simples da realidade fática dos seus próprios líderes, a bolha estoura. A soberania nacional deixa de ser um conceito abstrato de livros de direito constitucional e passa a ser exercida ali, no microespaço da caixa de comentários, limpando o ambiente da chatice crônica de quem odeia o próprio chão.
Viver em um país que constantemente luta para afirmar sua independência e relevância no cenário global exige paciência, mas também exige que saibamos rir dos nossos próprios colonizados de estimação. No final das contas, defender a soberania do Brasil contra quem quer rifá-la no mercado de balcão não precisa ser um fardo pesado. Pode ser uma atividade leve, divertida e altamente higiênica. Tudo o que você precisa é da dose certa de ironia e de um bom spray verbal sempre à mão para garantir que a cozinha da nossa história continue limpa.

Para Hoje: O livro “O Complexo de Vira-Latas”, que reúne as crônicas clássicas de Nelson Rodrigues. Embora o autor usasse o termo originalmente para o futebol, a obra é a anatomia definitiva da alma daquele brasileiro que insiste em se colocar de joelhos perante o mundo, ajudando a entender a origem dessa praga que ainda hoje tenta sabotar a nossa soberania nacional.
Se você também tem um amigo que não aguenta mais os fiscais de privatização da internet, envie este texto para ele. Vamos espalhar o repelente juntos.
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