O complexo de vira-lata gourmet e o maravilhoso inseticida chamado TariFlávio

Tentar explicar a importância da soberania nacional para quem tem fetiche em ser colônia é cansativo. Ainda bem que inventaram o TariFlávio, o inseticida definitivo para espantar os chatos da internet.

Existe um fenômeno fascinante na fauna política da internet brasileira que desafia as leis da lógica, da biologia e, principalmente, da dignidade humana. Falo daquele cidadão que se veste de verde e amarelo da cabeça aos pés, mas cujo maior sonho de consumo é ver o próprio país transformado em um estacionamento terceirizado de alguma corporação sediada em Delaware. É o nacionalismo mais exótico do planeta, uma espécie de patriotismo de exportação, onde o amor à pátria se manifesta no desejo ardente de vê-la completamente submissa a qualquer bilionário com um foguete de brinquedo ou uma rede social no bolso.

​No cotidiano das redes, essa turma costuma agir como aquela velha colônia de pragas urbanas que se esconde atrás dos armários da cozinha. Você está ali, postando calmamente sobre o orgulho de o Brasil desenvolver sua própria tecnologia, ou comentando a importância de manter nossas riquezas estratégicas sob o controle do povo, e de repente, do nada, surge uma antena se mexendo no canto da tela. Depois outra. Em poucos minutos, a seção de comentários é invadida por uma horda insistente, pronta para explicar que a soberania nacional é uma grande bobagem e que o correto seria entregar as chaves do Palácio do Planalto para o primeiro fundo de investimentos estrangeiro que passar na rua.

Ilustração digital em primeira pessoa de mãos segurando dois smartphones lado a lado. As telas exibem um aplicativo de rede social com comentários alarmistas sobre a economia do Brasil e a alta do dólar. Diversas baratas, que possuem a bandeira do Brasil e símbolos de cifrão verde pintados em suas costas, rastejam para fora das telas e andam sobre os aparelhos e as mãos. O ambiente de fundo é uma mesa de trabalho de madeira bagunçada, contendo um notebook aberto, jornais, papéis rabiscados e uma caneca branca com a inscrição "Café Forte". À esquerda, uma janela revela uma paisagem urbana com fios elétricos e casas.

​A fricção diária com esse tipo de mentalidade é exaustiva porque ela não se baseia em fatos, mas em uma profunda e incurável neurose de inferioridade. Para o entreguista gourmet, o Brasil é intrinsecamente incapaz. Se uma empresa nacional funciona, ela deveria ser vendida; se um cientista brasileiro brilha, ele deveria ter ido para o exterior; se o país decide proteger suas fronteiras digitais ou econômicas, é chamado de ditadura comunista por quem mal sabe a diferença entre o manifesto partidário e a lista de compras do supermercado. É uma insistência em diminuir o tamanho do próprio teto, como se viver de joelhos fosse a postura ideal para contemplar o mercado internacional.

​Tentar argumentar com essa linha de raciocínio usando dados consolidados, história econômica ou conceitos básicos de geopolítica é o equivalente a tentar ler poesia para uma parede. Eles não querem debater a soberania nacional, eles querem apenas validar a própria frustração de não terem nascido em uma comédia romântica de Nova York. É por isso que os métodos tradicionais de discussão falham miseravelmente. Você apresenta um gráfico sobre a balança comercial e recebe em troca um meme desconexo sobre venezuelização. Você fala sobre segurança de dados e eles respondem com chavões de coach financeiro do Instagram.

​Felizmente, a sabedoria popular e a criatividade do brasileiro médio sempre encontram uma saída para as situações mais absurdas da convivência digital. Recentemente, uma nova alcunha começou a circular pelos corredores virtuais, um termo que carrega em si a quantidade exata de ironia, deboche e realismo político necessária para desmontar qualquer discurso de extrema-direita focado na destruição do nosso patrimônio. Estou falando, claro, da maravilhosa expressão TariFlávio.

Ilustração satírica ambientada em um escritório clássico. No centro, um homem vestindo um traje social verde e amarelo com sapatos alados está prostrado de joelhos no tapete, rezando com as mãos unidas em direção a um gigantesco cifrão dourado posicionado sobre uma mesa de madeira maciça. Na mesa, há um pergaminho com um grande carimbo vermelho escrito "TARI FLÁVIO" e um carimbo de madeira. No chão, um bilhete diz "Deus, meu senhor... só não tira o meu WhatsApp!". Duas pequenas caricaturas de políticos se escondem no cenário, ambas com balões de fala dizendo: "Eu não tenho nada a ver com isso!". Um grande letreiro no topo direito ironiza: "Agora paga a tarifa,'patriota'! E cuidado com o meu PIX!". Ao fundo, a parede exibe um mapa do Brasil com a palavra "Soberania" e um busto de gesso.

​O efeito dessa palavra no debate público é algo digno de estudo laboratorial. Ela funciona exatamente como aquele inseticida de lata vermelha que nossos pais guardavam embaixo do tanque. Não há necessidade de textões explicativos ou de engajamento prolongado. Quando um desses defensores do entreguismo desbragado aparece na sua postagem para criar quizumba, reclamar do imposto sobre a fortuna alheia ou exigir que o país abra as pernas para o capital estrangeiro sem contrapartida, você não precisa se estressar. Basta soltar um simples, despretensioso e cirúrgico: “E o TariFlávio, hein?”.

​O resultado é imediato. É como acender a luz da cozinha às três da madrugada. A reação química da carapuça servindo provoca um curto-circuito instantâneo na narrativa. Aquela pose de analista geopolítico sênior desmorona em segundos. Eles se agitam, perdem o rumo do teclado e, em um piscar de olhos, fogem exatamente como as baratas assustadas do vídeo que circula por aí, procurando a fresta mais escura do rodapé para se esconder do ridículo.

​O humor dessa situação reside no fato de que o entreguismo, no fundo, é uma ideologia extremamente frágil. Ela depende do medo e da sensação de que somos pequenos demais para ditar nossas próprias regras. Quando você responde à tentativa de humilhação nacional com o deboche puro e simples da realidade fática dos seus próprios líderes, a bolha estoura. A soberania nacional deixa de ser um conceito abstrato de livros de direito constitucional e passa a ser exercida ali, no microespaço da caixa de comentários, limpando o ambiente da chatice crônica de quem odeia o próprio chão.

​Viver em um país que constantemente luta para afirmar sua independência e relevância no cenário global exige paciência, mas também exige que saibamos rir dos nossos próprios colonizados de estimação. No final das contas, defender a soberania do Brasil contra quem quer rifá-la no mercado de balcão não precisa ser um fardo pesado. Pode ser uma atividade leve, divertida e altamente higiênica. Tudo o que você precisa é da dose certa de ironia e de um bom spray verbal sempre à mão para garantir que a cozinha da nossa história continue limpa.

Ilustração com estética de histórias em quadrinhos retratando um homem sorridente em primeiro plano. Ele veste uma camiseta vermelha com um distintivo escrito "MST (Movimento Sem TarifLávio)". Nas mãos, ele segura e aciona uma grande lata de spray inseticida vermelha e preta, cujo rótulo diz "TariFlávio - Minion Exterminator - Eficácia Comprovada". A fumaça do spray assusta várias baratas antropomorfizadas que correm desesperadas pelo chão. As baratas têm expressões de pânico, vestem ternos executivos e carregam pequenas maletas de trabalho. O cenário ao fundo mostra uma rua com calçadas verdes, coqueiros altos e uma comunidade de casas aglomeradas em um morro sob um céu azul claro.

Para Hoje: O livro “O Complexo de Vira-Latas”, que reúne as crônicas clássicas de Nelson Rodrigues. Embora o autor usasse o termo originalmente para o futebol, a obra é a anatomia definitiva da alma daquele brasileiro que insiste em se colocar de joelhos perante o mundo, ajudando a entender a origem dessa praga que ainda hoje tenta sabotar a nossa soberania nacional.


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