
É fascinante observar a coreografia ensaiada das manhãs nas grandes metrópoles. Pessoas vestindo suas melhores armaduras de algodão e poliéster, carregando copos térmicos de café superfaturado, caminhando apressadas para vender o recurso mais escasso que possuem: o próprio tempo. Nós romantizamos o esgotamento, aplaudimos o colapso nervoso no altar do LinkedIn e chamamos de virtude a entrega incondicional da nossa mente e do nosso corpo ao capital. No fundo, todos nós somos especialistas em transações. Troca-se energia por dinheiro, presença por status, saúde por um cargo de gerência. E, no entanto, quando a transação envolve a intimidade e a pele, a sociedade moderna, tão orgulhosa de sua racionalidade econômica, subitamente veste a capa do puritanismo e começa a gaguejar.
A hipocrisia social é a argamassa invisível que mantém os tijolos da civilização no lugar. Nós precisamos de algo para apontar o dedo, uma fronteira moral clara que nos separe do abismo, para que possamos dormir à noite acreditando que somos pessoas de bem. E é exatamente nesse abismo conveniente que empurramos, há milênios, as profissionais que exercem o trabalho sexual. Elas habitam a periferia da nossa aceitação, sendo simultaneamente as guardiãs dos desejos inconfessáveis da sociedade e o alvo principal de sua fúria moralista. É um acordo silencioso: nós consumimos, nós julgamos, e fingimos que a engrenagem não depende das duas coisas para girar.
Mas houve um dia em que esse silêncio foi quebrado de forma tão espetacular que o eco ressoa até hoje. Voltemos no tempo. Não para a Roma Antiga ou para os bordéis da Era Vitoriana, mas para uma segunda-feira. Especificamente, o dois de junho de mil novecentos e setenta e cinco. O cenário não poderia ser mais ironicamente perfeito: a imponente Igreja de Saint-Nizier, na cidade de Lyon, na França.
Imagine a cena. Um grupo de mais de cem mulheres, cansadas de serem o alvo de uma violência policial implacável, de multas abusivas e do desprezo institucional, decide que o único lugar seguro em uma sociedade que as marginaliza é a casa de Deus. Elas não entraram pelos fundos. Elas marcharam pelas portas da frente, ocuparam as naves de pedra fria, penduraram faixas e declararam greve. Foi uma imagem de um poder cinematográfico absoluto. O sagrado e o considerado profano, sentados juntos no mesmo banco, exigindo direitos trabalhistas e o fim da brutalidade.
O trabalho sexual, até aquele momento, era tratado pelo Estado com a conveniência de um caixa eletrônico clandestino. A polícia francesa havia iniciado uma campanha agressiva de assédio, distribuindo multas contínuas por infrações vagas, transformando as vidas dessas mulheres em um ciclo de dívida e perseguição. Algumas sofreram violência física, outras até assassinatos que as autoridades não se deram ao trabalho de investigar. Afinal, para o sistema, elas não eram cidadãs; eram estatísticas invisíveis. A ocupação em Lyon não foi um pedido de desculpas, não foi um clamor por salvação espiritual. Foi uma exigência crua de dignidade humana e civil.

E o mais revelador sobre o evento não foi apenas a coragem daquelas mulheres, mas a reação do entorno. O padre da paróquia, Antonin, não chamou as autoridades para expulsá-las. Em um ato de lucidez rara, ele se recusou a despejar pessoas que buscavam refúgio contra a injustiça. Durante oito dias, a igreja virou um centro de resistência. O sino tocava para chamar a atenção da mídia e as portas permaneceram abertas para quem quisesse ouvir. Elas falaram sobre impostos, sobre creches, sobre o direito de caminhar na rua sem a ameaça de prisão. Em suma, falaram sobre a vida comum, rasgando o véu de mistério e pecado que a sociedade insiste em jogar sobre o trabalho sexual.
O protesto, naturalmente, acabou com a intervenção da polícia de choque no dia dez de junho, porque o poder instituído tolera qualquer coisa, menos a evidência da própria hipocrisia exposta sob a luz do sol. Mas a semente já estava plantada. A faísca de Lyon acendeu greves em Paris, Marselha e outras cidades europeias, culminando na criação do Dia Internacional das Profissionais do Sexo. Uma data que, até hoje, serve como um lembrete desconfortável de que os direitos humanos não devem parar na porta de um quarto de hotel ou na calçada de uma avenida escura.
Hoje, vivemos na era digital, onde a mercantilização da imagem e da intimidade ganhou filtros de alta definição, plataformas por assinatura e uma nova camada de complexidade. O mercado mudou, os algoritmos substituíram os cafetões, mas o núcleo da questão permanece intacto. O estigma ainda é a moeda mais barata do mercado moral. Continuamos exigindo pureza de quem vende a fantasia e fingindo que os compradores não somos nós mesmos, nossos vizinhos, nossos políticos e nossos juízes.
A grande ironia de celebrar o dois de junho é reconhecer que a verdadeira obscenidade nunca esteve no trabalho em si. A obscenidade está no desprezo institucional. Está no fato de que uma sociedade pode taxar um serviço, lucrar com sua existência estrutural e, ao mesmo tempo, negar dignidade básica a quem o executa. As mulheres de Saint-Nizier entenderam que, em um mundo obcecado por aparências, forçar a sociedade a olhar para o espelho é o maior ato de rebelião possível.
Enquanto caminhamos para nossos escritórios modernos, reclamando dos nossos chefes e vendendo nossas horas úteis por uma promessa de segurança, faríamos bem em lembrar daquelas mulheres nos bancos da igreja em Lyon. Elas nos ensinaram que a dignidade não é algo que a moralidade aprova ou desaprova; é algo que se exige de pé, mesmo que o mundo inteiro esteja esperando que você fique de joelhos.
Para Hoje: Assista a “The Deuce” (HBO). Uma série brilhante, crua e incrivelmente bem escrita que disseca a legalização e a ascensão da indústria adulta na Nova York dos anos setenta. É uma aula magistral sobre economia, margens da sociedade e como as engrenagens invisíveis da cidade realmente funcionam, sem romantismo barato e com muito pragmatismo.
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