Há certas datas no nosso calendário que deveriam ser comemoradas com o mesmo fervor que dedicamos às finais de campeonato ou aos feriados prolongados que caem numa terça-feira. O dia três de agosto é uma delas. Foi neste exato dia, lá no distante ano de 1988, que a Assembleia Nacional Constituinte olhou para os escombros de mais de duas décadas de silêncio forçado e decidiu que o Brasil não seria mais um país amordaçado. A aprovação do fim da censura não foi apenas uma canetada burocrática em um pedaço de papel; foi um suspiro de alívio coletivo de uma nação que estava cansada de ter que falar em códigos, metáforas e sussurros.

​Mas a história, como sabemos, tem um senso de humor peculiar. E o que vemos hoje nas ruas, nas redes sociais e nos discursos inflamados é uma ironia tão densa que poderia ser cortada com uma faca de manteiga.

​Nós vivemos um momento bizarro. Se você descer para comprar pão agora mesmo, existe uma chance real de cruzar com alguém que defende abertamente a volta dos anos de chumbo. E o mais fascinante é que essa pessoa fará isso aos berros, usando o Twitter, o YouTube e o WhatsApp, usufruindo da mais cristalina liberdade de expressão para clamar pelo fim da própria liberdade. É o equivalente a usar um megafone para pedir que arranquem as suas cordas vocais.

Uma máquina de escrever vintage cinza do modelo Olivetti Prática sobre uma mesa rústica de madeira, iluminada por uma luminária clássica de luz quente. Presa ao rolo da máquina, há uma folha de papel datilografada com um grande carimbo vermelho escrito "CENSURADO", cruzado por um "X" verde. À direita da máquina, repousa um smartphone exibindo uma tela de alerta sobre "fake news". À esquerda, há papéis dobrados e uma caneta. O ambiente tem uma atmosfera escura, de escritório antigo.

​Para entender o tamanho desse delírio coletivo, precisamos olhar para o espelho retrovisor da nossa história recente. Não faz muito tempo, assistimos boquiabertos ao fim da gestão Bolsonaro, onde a palavra liberdade foi sequestrada e esvaziada de seu significado real. Vimos a escalada de um flerte descarado com a ruptura institucional, culminando na tentativa fracassada de um golpe que parecia roteirizado por um humorista em crise de criatividade. Pessoas comuns, tios do churrasco e vizinhas simpáticas abandonaram o conforto de seus lares para acampar em frente a quartéis militares. Tomaram chuva, passaram frio, cantaram o hino nacional para pneus de caminhão e sinalizaram para o espaço com as lanternas dos celulares. Tudo isso para implorar que homens fardados rasgassem a Constituição e instalassem uma ditadura.

​Quando analisamos o discurso da direita contemporânea que promove esse tipo de espetáculo, as semelhanças com o modus operandi dos militares em 1964 deixam de ser uma coincidência e passam a ser um plágio mal disfarçado. A cartilha é exatamente a mesma, apenas atualizada para a era digital.

​O primeiro pilar dessa máquina de ilusões é a criação de um pânico moral constante. Durante a ditadura, o fantasma era a subversão da família tradicional pelos comunistas comedores de criancinhas. Hoje, o discurso da direita recicla esse mesmíssimo roteiro. Eles olham para as escolas, para as artes e para a cultura, e apontam o dedo gritando que nossos valores estão sob ataque. A tática é antiga: convença as pessoas de que a moralidade delas está prestes a ser destruída por um inimigo invisível, e elas aceitarão qualquer tipo de violência estatal como se fosse salvação.

​O segundo pilar é a caça aos inimigos internos. No passado, bastava uma denúncia anônima de que você lia os livros errados para acabar nos porões do DOI-CODI, enfrentando horrores que a mente humana civilizada sequer consegue processar direito. A perseguição era física, brutal e letal. O que vemos hoje é uma versão digital e institucionalizada dessa mesma paranoia. Os patriotas modernos acusam de traição qualquer um que ouse discordar da cartilha extremista. Eles transformam professores, cientistas, artistas e jornalistas na escória da nação, tentando justificar a necessidade de um pulso firme para limpar o país dessa suposta sujeira ideológica.

Um homem de meia-idade em pé sob chuva forte, vestindo uma camisa amarela da seleção brasileira de futebol com detalhes verdes, e um chapéu cônico feito de papel alumínio. Ele olha concentrado para um smartphone em suas mãos, enquanto carrega pendurada no pescoço uma placa de papelão com a frase "ME CENSURE" escrita em letras pretas. Ao fundo, desfocados, estão muros altos de concreto, uma guarita de segurança e figuras que aparentam ser guardas militares. O asfalto está molhado e reflete levemente a cena.

​E é exatamente aqui que a ironia se torna insuportável. Os arquitetos desse discurso moderno adoram posar de vítimas de censura. Seus perfis com milhões de seguidores publicam diariamente, em plataformas globais, textos longos e vídeos indignados sobre como estão sendo silenciados pelo sistema. Eles confundem a moderação de regras básicas de convivência civil e o combate a crimes com perseguição política. O indivíduo perde um patrocínio por espalhar mentiras sobre saúde pública e imediatamente se compara aos exilados políticos da década de setenta.

​Mas quem viveu ou estudou minimamente os anos sombrios sabe a diferença abismal entre receber um alerta de fake news no Instagram e ter censores do governo sentados fisicamente dentro da redação do seu jornal, apontando o dedo para o que poderia ou não ser publicado no dia seguinte. O verdadeiro fim da censura significou não precisar mais publicar receitas de bolo de cenoura no lugar de reportagens investigativas sobre corrupção. Significou que músicos não precisavam mais submeter suas letras a coronéis que decidiam se uma canção de amor era uma ameaça à segurança nacional. A ditadura não cancelava ninguém na internet; ela cancelava vidas, existências e o direito mais básico de divergir.

​O que o flerte atual com esse passado representa não é apenas uma ignorância histórica profunda, mas uma preguiça intelectual gigantesca. É o desejo de um mundo preto e branco, onde um líder forte resolve todos os problemas complexos de um país de dimensões continentais na base da força e do silêncio. A democracia dá trabalho. Exige paciência, negociação, suportar opiniões contrárias e entender que o país não é o quintal particular da sua visão de mundo.

​A tentativa de golpe recente foi o estopim de anos sendo alimentados por essa nostalgia de um tempo que não foi bom, a não ser para quem estava com o chicote na mão. O fracasso dessa tentativa mostra que, apesar das fraturas, as fundações da nossa casa ainda estão de pé. E a data de hoje, que celebra o fim do silêncio institucional, serve como um farol importante.

​Nós precisamos olhar para essas movimentações bizarras e manter a guarda alta, sem dúvida. O discurso extremista é barulhento e cansativo. Mas, ao mesmo tempo, existe uma necessidade vital de respirarmos fundo e olharmos para a frente. O Brasil é um país imperfeito, barulhento, caótico e cheio de contradições, mas é infinitamente mais belo na sua bagunça democrática do que jamais foi sob a ordem falsa dos coturnos.

​O caminho é sempre para diante. Evoluir não significa apagar os erros do passado, mas transformá-los em um museu que visitamos apenas para lembrar do que não devemos repetir. A liberdade que reconquistamos em 1988 é o nosso oxigênio. E mesmo que alguns continuem gritando em seus megafones para que o ar seja cortado, nós continuaremos respirando, escrevendo, discordando e caminhando. Afinal, o retrovisor é muito pequeno se comparado ao tamanho do para-brisa que temos pela frente.

Para Hoje:

A recomendação não poderia ser diferente. Reserve um tempo para mergulhar no livro "A Ditadura Envergonhada", de Elio Gaspari. É o primeiro volume de uma coleção essencial que joga uma luz ofuscante sobre os bastidores daquele período. Para quem prefere cinema, o filme "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" traz uma visão dolorosamente humana e poética sobre os impactos da repressão no cotidiano de uma criança comum. A memória é o melhor antídoto contra a ignorância.

Uma sala de interrogatório escura e sombria com paredes de pintura verde descascada. Uma lâmpada incandescente nua pende do teto por um fio rústico, iluminando uma mesa de madeira onde dois homens estão sentados. O homem à esquerda veste uma camisa verde de estilo militar e analisa documentos, enquanto o homem à direita, vestindo uma camisa escura, está sentado com as mãos apoiadas na mesa. Sobre o móvel há um antigo gravador de rolo, pastas de papel e um cinzeiro. Uma cadeira vazia aparece no primeiro plano à esquerda.
Um estúdio de podcast moderno e tecnológico, fortemente iluminado por vibrantes letreiros de neon em azul e rosa com os dizeres "SOUND WAVE" e "LIVE ON AIR". No centro, um jovem de cabelos escuros vestindo uma camisa azul escuro apoia as duas mãos sobre a mesa, inclinando-se para a frente e gritando agressivamente em um microfone profissional. A mesa de madeira está equipada com uma grande mesa de som, um mousepad de feltro e dois monitores de computador que exibem softwares de edição com gráficos de ondas de áudio. Painéis acústicos geométricos decoram as paredes ao fundo.
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