O alarme toca. Você levanta, engole um café coado na pressa sem nem sentir o gosto, confere os e-mails antes mesmo de lavar o rosto e mergulha no trânsito caótico. A rotina moderna é uma esteira ergométrica programada para a velocidade máxima, onde nós somos os hamsters vestidos de terno, crachá e exaustão crônica. Nós agendamos reuniões, agendamos o horário exato do crossfit, agendamos a terapia e, se bobear, agendamos até a janela de tempo de quinze minutos em que vamos chorar no banho para não atrapalhar a produtividade da semana. Somos, sem sombra de dúvida, a geração refém do Google Calendar. Tudo o que importa está em um bloco colorido na tela do celular. O que não está ali, simplesmente não existe.

​E no meio dessa abordagem assustadoramente burocrática e metódica da nossa própria existência, surgem as datas comemorativas. O calendário comercial é um monumento erguido em homenagem à nossa necessidade de validação externa. Tem o dia da árvore, o dia do contador, o dia do sorvete de pistache. Mas há uma data específica que escancara, de forma quase cruel, a nossa profunda desconexão com a nossa própria natureza animal. Uma data que nos obriga a olhar para as nossas agendas hiper otimizadas e perceber que terceirizamos algo absolutamente fundamental. Hoje, vamos falar sobre a origem do dia do orgasmo e como transformamos a nossa intimidade em mais um item de checklist.

​Para entender a ironia profunda dessa história, precisamos de uma máquina do tempo. O destino é a chuvosa, cinzenta e contida cidade de Londres 1999.

Homem sorridente caminhando sob forte chuva em uma rua movimentada de Londres, segurando um guarda-chuva escuro. Ele veste jaqueta escura e calça jeans. O cenário urbano de fim de tarde destaca o asfalto molhado refletindo as luzes da cidade, um clássico táxi preto à esquerda, ônibus vermelhos de dois andares ao fundo e diversos pedestres caminhando com guarda-chuvas próximos a vitrines iluminadas.

​Imagine o cenário com precisão. É o final da década de noventa. O mundo corporativo está absolutamente apavorado com a possibilidade do bug do milênio desligar os caixas eletrônicos, derrubar aviões e devolver a humanidade à idade da pedra. O filme Matrix acaba de chegar aos cinemas, fazendo todo mundo com um sobretudo preto questionar se a realidade é apenas uma simulação em código verde. E no Reino Unido, a terra onde a contenção emocional não é apenas um traço cultural, mas um verdadeiro esporte olímpico, algo inusitado e barulhento estava para acontecer.

​Os britânicos são mundialmente famosos por pedir desculpas até quando você pisa no pé deles. Falar sobre intimidade em voz alta, numa tarde de terça-feira no metrô em Londres 1999, ainda era tratado com aquele tipo de pigarro constrangido e desvio de olhar que as pessoas reservam para admitir um erro grave em público. Era um tabu espesso, velado por intermináveis xícaras de chá de camomila e conversas protocolares sobre a instabilidade da previsão do tempo.

​Foi exatamente nesse ambiente de extrema polidez e repressão secular que uma rede de lojas focada em produtos para adultos, a Ann Summers, decidiu que precisava de um belo golpe de relações públicas. O departamento de marketing, provavelmente movido a café solúvel ruim, noites mal dormidas e a pressão brutal para bater as metas financeiras do trimestre, olhou para o calendário vazio do verão europeu e teve uma epifania corporativa brilhante. Eles declararam o dia 31 de julho como uma data oficial de celebração nacional. Nascia ali, entre planilhas de vendas e reuniões de pauta, a origem do dia do orgasmo.

​O objetivo oficial e polido divulgado na imprensa sobre a origem do dia do orgasmo? Estimular a discussão pública sobre o prazer feminino, educar a população e quebrar tabus em uma sociedade historicamente engessada. O objetivo não tão oculto assim que corria nos corredores da empresa? Vender uma montanha de produtos, alavancar o faturamento no dia 31 de julho e criar um pico de consumo antes da chegada do outono.

​É maravilhosamente irônico e tristemente sintomático que a origem do dia do orgasmo esteja intrinsecamente enraizada no marketing de varejo britânico. Pense bem: nós precisávamos de uma rede de lojas com letreiros de neon para nos dar permissão oficial para celebrar a biologia básica. O ser humano moderno já estava tão anestesiado e desconectado do próprio corpo que precisou de um selo de aprovação do capitalismo selvagem para lembrar que o prazer existia.

​Mas a genialidade da campanha é que a ideia pegou feito pólvora. Pegou porque, no fundo da nossa alma exausta, nós amamos uma desculpa oficial. Nós adoramos um prazo, uma diretriz, um evento marqueteiro. Se está no calendário, a culpa some. Deixa de ser uma indulgência pecaminosa ou uma perda de tempo e passa a ser uma tarefa legítima. Nós, em nossa infinita neurose, transformamos o ápice da satisfação física em uma obrigação civil.

Homem de sobretudo bege sorrindo de forma descontraída diretamente para a câmera, segurando a revista "loaded" sobre o balcão de uma farmácia. Atrás do balcão, a farmacêutica de jaleco branco e óculos o observa com uma expressão desaprovadora. O ambiente possui uma estética clássica, decorado com prateleiras de madeira repletas de remédios e placas publicitárias antigas de marcas farmacêuticas como Nurofen e Vicks.
Homem vestindo um sobretudo bege em pé no balcão de uma farmácia, olhando com leve tensão para a farmacêutica. A profissional, uma mulher de meia-idade de jaleco branco, o observa com expressão séria. Sobre o balcão de madeira, há uma sacola de papel pardo exibindo parcialmente a capa da revista "Gay Times 1999" ao lado de uma caixa registradora vintage. O fundo é preenchido por prateleiras repletas de caixas de medicamentos.
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​E a história fica ainda mais absurda e ganha contornos de realismo fantástico. Se os executivos engravatados britânicos inventaram a desculpa comercial em Londres 1999, foi o Brasil que elevou a brincadeira ao status máximo de burocracia estatal. Vamos avançar alguns anos, trocar a garoa fria da Europa pelo calor inclemente do Piauí e ver como o Estado resolveu se meter na libido alheia.

​Entre na história Esperantina, um pacato e pequeno município brasileiro. Em 2001, um vereador chamado Arimatéia Dantas olhou para os seus eleitores, analisou as demandas sociais e concluiu que o verdadeiro problema da cidade não era apenas o asfalto esburacado ou a infraestrutura precária. A verdadeira crise era a falta de alegria íntima. A escassez crônica de prazer.

​Com a caneta na mão, ele redigiu e conseguiu aprovar uma lei municipal estabelecendo o dia 9 de maio como a data oficial da cidade para tratar do tema, criando um feriado extraoficial da intimidade. A justificativa do projeto de lei era uma obra-prima absoluta do dever cívico: ele argumentava, com dados empíricos de observação local, que a ausência de satisfação estava causando estresse epidêmico, desencadeando problemas conjugais irreversíveis e gerando um verdadeiro déficit na saúde pública do município. A falta de prazer era, segundo ele, uma questão de Estado.

​Pense no surrealismo absoluto e na genialidade cômica dessa cena. Um político ocupando a tribuna da Câmara Municipal, ajustando o microfone diante dos colegas, e praticamente exigindo que a população atingisse o clímax para garantir o bem-estar e a paz social da municipalidade. As notícias da época são um tesouro inestimável do jornalismo folclórico. Redes de televisão japonesas mandaram equipes de reportagem apressadas para o Piauí. Jornais europeus de renome, que haviam coberto a origem do dia do orgasmo em Londres 1999, agora dedicavam páginas inteiras para fazer reportagens sobre a revolucionária lei brasileira.

​Havia matérias bizarras e maravilhosas de casais exigindo que a prefeitura fornecesse jantares românticos e vinhos para que eles pudessem cumprir a lei adequadamente. Afinal, se era uma demanda pública, o poder público precisava subsidiar o romance. A origem da data lá no dia 31 de julho pode ter sido uma jogada de mestre do varejo britânico, mas a institucionalização dela como questão de saúde pública foi o mais puro suco da criatividade brasileira.

Visão superior (flat lay) de uma mesa de madeira contendo objetos nostálgicos da década de 1990. À esquerda, uma xícara de chá Twinings Earl Grey sobre um pires florido e um pager Motorola preto exibindo a data 07-31. No centro, um calendário aberto em julho de 1999, destacando o dia 31 circulado em marcador vermelho com a anotação "PARTY @ THE CAFE!". À direita, parte da capa do jornal The Sun datado de 2 de agosto de 1999.

​Mas, para além da comédia rasgada, dos programas de auditório explorando o tema nas tardes de domingo e do marketing de vitrine, há um espelho gigante apontado para as nossas caras cansadas.

​Olhe para a sua rotina hoje, agora mesmo. Olhe para o seu smartwatch vibrando histericamente para te lembrar de ficar em pé, porque você está sentado há sessenta minutos. Olhe para o aplicativo no seu celular que rastreia quantos copos de água você bebeu, como foram os gráficos das suas ondas cerebrais nos ciclos de sono REM e quanto tempo exato você gastou rolando o feed em busca de dopamina barata e curtidas vazias.

​Nós passamos a quantificar cada milímetro da nossa existência. Tratamos nossos corpos como máquinas temperamentais que precisam do input exato de macronutrientes, de quinze minutos cravados de meditação guiada e de podcasts de produtividade acelerados em velocidade 2.0x para não quebrar. Nessa realidade hiper otimizada e vigiada, o prazer perdeu a espontaneidade. Ele virou apenas mais uma caixa para marcar na lista de afazeres. Uma tarefa árdua a ser encaixada e espremida entre a entrega do relatório financeiro da diretoria e a rotina de skincare noturna que você faz bocejando.

​A verdadeira e silenciosa tragédia por trás da origem do dia do orgasmo, seja a invenção original de Londres 1999 ou a adaptação folclórica no interior do Brasil, é que ele precisou ser inventado. Nós chegamos a um ponto de fadiga civilizatória tão profundo e assustador que precisamos de uma data específica designada no calendário, um bendito dia 31 de julho, para lembrar de fechar os olhos e sentir algo de bom sem sentir culpa.

​Nós agendamos a nossa alegria porque a alegria espontânea soa inútil e improdutiva aos olhos do mercado. Se o momento de relaxamento não está pautado, categorizado e metrificado, parece que estamos roubando tempo do nosso próprio potencial de crescimento profissional. A herança que recebemos de Londres 1999 não é sobre quebrar tabus ou libertar a sociedade de suas amarras; é, na verdade, um imenso monumento à nossa exaustão coletiva. Estamos tão embrulhados na fricção diária de boletos, notificações e prazos que esquecemos como habitar a própria pele sem precisar de um lembrete externo apitando no celular.

​A epifania dolorosa, que bate quando a gente desliga a tela à noite, é perceber que o calendário moderno é uma armadilha perfeita. A lei no Piauí é hilária, sim, mas ela nasce exatamente do mesmo sintoma que gerou a data londrina. Nós terceirizamos a permissão para sentir. Esperamos religiosamente o final de semana para descansar o corpo. Esperamos as sagradas férias anuais para viajar e ver o sol. Esperamos que o dia 31 de julho chegue para buscar o prazer com o aval da sociedade.

​Talvez a rebelião definitiva no mundo corporativo moderno não seja sobre acordar às cinco da manhã, tomar banho gelado ou encontrar o hack de produtividade perfeito que os gurus da internet tentam te vender. Talvez a atitude mais subversiva, anárquica e curativa que você possa ter hoje seja retomar a autonomia da própria alegria.

​Desagende. Cancele o alarme. Deixe ser bagunçado. Deixe ser inconveniente, fora de hora, numa terça-feira qualquer. Tire a estrutura burocrática pesada de cima da sua biologia. Porque se você precisa de uma data oficial no calendário, criada por uma loja de departamentos nos anos noventa para vender lingerie, apenas para lembrar de buscar o próprio prazer, o problema definitivamente não é a sua libido. O problema é a sua agenda.

Para Hoje: Coloque para tocar o álbum "Play" do Moby. Lançado exatamente no turbilhão de 1999, com suas texturas eletrônicas misturadas a samples de blues e gospel, é a trilha sonora perfeita para pensar em como o mundo girava antes dos smartphones, quando a gente ainda tinha algum tempo para o tédio criativo, para o acaso e, principalmente, para o prazer não agendado.


Conhece alguém que tem a vida inteira planilhada no Excel, que vive pelo alerta do calendário e que precisa urgentemente de um choque de realidade para voltar a respirar? Mande este texto para essa pessoa. Pode ser exatamente o lembrete incômodo que ela precisava para cancelar aquela reunião inútil das 18h e ir viver um pouco fora da tela.