
Você acorda, desliga o alarme do celular e, antes mesmo de colocar os pés no chão gelado do quarto, já puxou a tela para baixo. Atualiza o feed. Atualiza o e-mail. Atualiza a vida. Em quinze segundos, você consumiu a tragédia internacional do dia, o café da manhã irreal da influenciadora e uma dancinha que promete curar sua procrastinação. Nossa vida virou um varal digital. Mas, diferente dos varais antigos onde as roupas secavam no tempo manso do sol, no nosso varal moderno penduramos ansiedades, notificações e urgências que nunca secam. Estão sempre pingando.
Hoje, no meio dessa fricção diária em que o relógio parece conspirar contra a nossa paz, o calendário nos entrega de bandeja o Dia Nacional do Poeta da Literatura de Cordel. E talvez você se pergunte o que um analista de sistemas estressado na Faria Lima, um freelancer tomando café frio no Leblon ou um estudante no metrô lotado tem a ver com os cantadores das feiras nordestinas. A resposta é: tudo. A gente precisa desesperadamente da tecnologia deles. Não a tecnologia do silício, mas a tecnologia da pausa, do ritmo e da rima.
Para entender essa ironia, eu decidi que não adiantava apenas falar sobre o assunto no tom plastificado de sempre. Era preciso invocar a alma da coisa. Afinal, se o assunto é o poeta, que o texto se curve à poesia. Peço licença ao algoritmo, pois a partir de agora, quem dita o ritmo é o cordel.
Leitor que vive apressado
Com a tela na mão suada
Achando que o mundo acaba
No fim da madrugada
Desligue o seu celular
E venha nessa jornada.
Pois hoje é dia de glória
De um povo trabalhador
Dia do Poeta de Cordel
Que é nosso narrador
Um jornalista da rima
Que fala de dor e amor.
Para falar da importância
Desse nobre menestrel
Precisamos ir no tempo
Rasgando o véu do céu
Lá na Península Ibérica
Onde nasceu o cordel.
Chegou em terras tupis
Na mala do português
Mas foi no nosso Nordeste
Que o verso ganhou sua vez
Bebendo da terra seca
E da nossa lucidez.
No começo era no gogó
A história contada ao vento
Na feira do interior
Sem pressa e sem tormento
O povo parava e ouvia
Pois tempo era o alimento.
Depois foi para o papel
Folhetos de baixo custo
Pendurados num barbante
Num cenário tão robusto
Onde a rima era a lei
E o verso, sempre justo.
E aqui faço uma pausa na métrica para observar o cenário que nos cerca. Imagine a genialidade do processo. Enquanto nós pagamos assinaturas caríssimas de plataformas de streaming para tentar encontrar uma história que nos prenda por trinta minutos, o poeta de cordel resolvia isso com algumas folhas rústicas, um barbante e um pregador de roupas. Eles criaram a primeira rede social do Brasil. Quando não existia internet, era o folheto de cordel que contava se o cangaceiro tinha sido pego, se o político tinha roubado, ou se o diabo tinha aparecido na festa no interior da Paraíba. O poeta era o trending topic, o portal de notícias e o roteirista, tudo numa pessoa só.

Mas havia também a questão visual. A gente associa logo o cordel à xilogravura, aquele corte seco na madeira. Mas a riqueza do folheto nordestino também abraçou, em sua jornada, a nobre arte da litografia. A litografia, que usa a matriz de pedra, casou perfeitamente com a textura do sertão. A pedra matriz recebe o traço, a tinta adere apenas onde o desenho foi feito, repelindo a água. Não é exatamente assim que sobrevivemos na selva de pedra das cidades? Repelindo o que não nos serve, gravando na memória os traços fortes do que realmente importa. As capas litografadas dos folhetos traziam heróis e monstros em traços duros, contrastantes, em preto e branco, uma estética que até hoje grita autenticidade no meio de tantos filtros suavizadores do Instagram.
Voltando ao nosso mestre
Que escrevia sem parar
Leandro Gomes de Barros
Foi quem soube começar
A imprimir a nossa alma
Para o povo declamar.
Ele e tantos outros gigantes
Com a pena na mão calosa
Tiraram do nosso chão
A poesia mais formosa
Transformando a dor da seca
Em uma rima preciosa.
A litografia na capa
A pedra que vira arte
O desenho que não apaga
Fazendo a sua parte
No folheto pendurado
A cultura se reparte.
O cordel é resistência
Num mundo de muita tela
É o traço feito na pedra
A luz na viela escura e bela
É a voz do nordestino
Que o tempo não atropela.
E qual é a importância, afinal, de celebrar o Dia Nacional do Poeta da Literatura de Cordel no meio do nosso caos urbano? É a importância de lembrar que a comunicação humana não precisa ser descartável. Quando você lê um cordel, você não consegue fazer leitura dinâmica. Você não consegue "escanear" o texto com os olhos buscando apenas a palavra-chave. A rima te obriga a frear. A métrica segura você pelo colarinho e diz: "Leia no meu tempo, senão a música quebra".
Isso é de uma sofisticação emocional absurda. Nós perdemos a capacidade de seguir o compasso do outro. Queremos acelerar o áudio do amigo para a velocidade 2.0. Queremos o resumo do resumo. O poeta de cordel nos ensina que a forma como a história é contada importa tanto quanto o final dela. O suspense, a piada no terceiro verso, a conclusão no sexto. Existe uma matemática da emoção ali que nenhum software do Vale do Silício conseguiu replicar.
Você que anda no trânsito
Xingando o farol fechado
Lembre do poeta antigo
Que andava no sol lascado
E tirava um verso lindo
Do chão que estava rachado.
A vida não é só boleto
Nem meta pra se bater
É preciso achar a rima
Que faz a alma crescer
Pendurar no seu varal
Motivos para viver.
Que o Dia do Poeta
Não seja só no papel
Que a gente aprenda a lição
Com o mestre menestrel
A rotina fica leve
Com a magia do cordel.
Quando você fechar esta aba do navegador, a cidade vai continuar gritando lá fora. As buzinas, os prazos, as notificações não vão parar. A fricção do cotidiano continuará existindo, implacável. Mas talvez, só talvez, você consiga olhar para o caos com os olhos de quem entende que tudo isso é apenas matéria-prima. O poeta de cordel olhava para a miséria, para o cangaceiro violento, para a corrupção e para o diabo, e transformava tudo isso em arte pendurada num barbante. Nós podemos pegar nossos pequenos desastres diários, o café derramado, o ônibus perdido, o chefe impaciente, e rir deles. Podemos dar a eles um contorno de litografia, contrastar bem o preto e o branco, e seguir a vida no ritmo certo. Menos scroll infinito. Mais poesia no varal.
Para Hoje
Vá atrás do documentário "O Poeta do Castelo" ou simplesmente busque as obras de Patativa do Assaré. Para escutar, coloque o álbum "O Romance do Pavão Mysterioso", de Ednardo. Sente, não olhe para o celular por vinte minutos e deixe a narrativa nordestina ditar a velocidade do seu coração.
Conhece alguém que está vivendo na velocidade 2.0 e precisando urgentemente de um choque de realidade em forma de rima? Manda esse texto. Prometo que ler esses versos leva menos tempo do que escolher um filme no catálogo do streaming, e faz muito melhor para a alma.