Fotografia frontal de um homem caucasiano de jaqueta jeans e capacete cinza pilotando uma motocicleta no centro de uma ampla avenida metropolitana densamente engarrafada. A cena ocorre durante o pôr do sol, com uma luz quente iluminando os veículos ao redor e os imponentes arranha-céus comerciais que ladeiam a via até o horizonte.

​O relógio marca dezenove horas em São Paulo e o asfalto parece ter desistido de funcionar. Você está encapsulado na sua caixa de metal, vidro e plástico. O rádio toca uma música que você já ouviu três vezes hoje, o ar-condicionado resseca seus olhos e, lá fora, o mundo se resume a um imenso tapete de luzes vermelhas que se estende até onde a vista alcança. É o ápice da inércia. O trânsito brasileiro em sua forma mais cruel e cotidiana, um purgatório movido a gasolina e frustração onde todos são reféns do espaço que ocupam.

​Então, começa o som. Longe, a princípio, mas crescendo como um enxame de abelhas mecânicas irritadas. Um coro de pequenas buzinas em compasso irregular. Bi-bi. Bi-bi. Você instintivamente recolhe os ombros, aperta um pouco mais o volante e acompanha pelo espelho lateral a aproximação de um balé frenético. O corredor, aquele espaço imaginário, estreito e claustrofóbico entre duas fileiras de carros paralisados, ganha vida. Passa um. Passam dois. Passam cinco. Eles cortam o vento, ignoram a física e desaparecem na neblina de poluição enquanto você avança exatos três centímetros.

​Hoje é vinte e sete de julho. Enquanto a cidade engole a si mesma no horário de pico, celebramos o Dia do Motociclista. E se você é daqueles que pragueja toda vez que um guidão passa a milímetros da sua pintura recém-polida, talvez seja a hora de puxar o freio de mão dos seus preconceitos e entender o que realmente significa viver sobre duas rodas no trânsito brasileiro.

​Não é uma data criada pelo varejo para vender capacetes com desconto. A origem do Dia do Motociclista tem o gosto amargo do asfalto molhado e a melancolia das histórias que o tempo tenta, mas não consegue, apagar. Tudo remonta a mil novecentos e setenta e quatro, num dia exatamente igual ao de hoje. Marcus Antônio Moraes Dias, um ex-mecânico da Honda e motociclista apaixonado, perdeu a vida em um acidente em Bauru, interior de São Paulo. Marcus não era um piloto de testes famoso ou um astro do esporte. Era um cara comum, alguém que entendia as entranhas da máquina e vivia a cultura da estrada.

​Sua morte gerou uma comoção incomum. A Associação Brasileira de Motociclistas, recém-formada na época e liderada pelo então presidente e amigo de Marcus, decidiu que aquele luto precisava se transformar em manifesto. O Dia do Motociclista nasceu não de uma vitória de campeonato, mas de uma perda brutal. É uma lembrança perene de que a liberdade cobrada pelo vento no rosto exige o tributo constante da vulnerabilidade. O trânsito brasileiro não perdoa, e quem escolhe as duas rodas sabe que o chassi daquele veículo é o próprio corpo humano.

Visão a partir do espelho retrovisor lateral de um carro, mostrando o reflexo de um entregador de moto logo atrás. O motociclista tem os olhos arregalados em uma expressão de choque. Ele veste jaqueta amarela e vermelha e carrega uma mochila térmica de entrega nas costas, sobre a qual se equilibra uma pilha alta e instável de caixas de pizza de papelão.

​E aí voltamos para a sua janela fechada. A relação entre o motorista de carro e o piloto de moto é o paradoxo mais engraçado da rotina urbana. É uma mistura tóxica de inveja reprimida e pânico absoluto. O motorista odeia o motociclista porque ele fura a fila da vida. Enquanto o cidadão de quatro rodas calcula mentalmente quantos anos de vida perderá na Marginal Tietê ou na Avenida Brasil, o motociclista simplesmente desmaterializa a distância. Ele flui como água entre as pedras de um rio engarrafado.

​Por outro lado, o humor da situação é inegável. Basta observar o ecossistema complexo dos entregadores de aplicativo para dar risada do absurdo. No auge do trânsito brasileiro, lá vai um guerreiro urbano equilibrando uma mochila térmica colossal que desafia todas as leis da aerodinâmica. Eles inclinam a moto em ângulos que fariam físicos da NASA chorarem, tudo para garantir que a sua pizza de calabresa chegue quente antes que o episódio da sua série acabe. Há uma genialidade cômica na forma como buzinam para o nada, como conversam por gestos curtos e como dominam uma linguagem de faróis que nós, meros mortais presos em caixas metálicas, jamais compreenderemos.

​Mas por que alguém escolheria essa roleta-russa diária? Por que, sabendo dos riscos e da estatística sombria que muitas vezes acompanha o Dia do Motociclista, tantas pessoas acordam de madrugada e dão a partida no motor?

​A resposta é uma epifania que só se tem quando os vidros do carro estão baixos. Andar sobre duas rodas não é apenas um método de transporte. É uma postura perante o mundo. Quando você está em um carro, você é um espectador. A paisagem passa por uma moldura de vidro, o ar tem cheiro de filtro de cabine e a temperatura é controlada por um botão. O carro é um casulo de negação, uma tentativa de isolar o indivíduo do ambiente hostil lá fora.

​Na motocicleta, a narrativa vira do avesso. Você não está no trânsito brasileiro, você é o trânsito brasileiro. Você sente a mudança térmica exata quando passa de uma rua arborizada para uma avenida de concreto. Você sente o cheiro da padaria, o escapamento do ônibus velho, a umidade da chuva que avisa que vai cair três quarteirões antes da primeira gota atingir a sua viseira. O motociclista está visceralmente conectado ao pulso da cidade. Cada buraco, cada desnível no asfalto, cada pedestre apressado exige uma presença de espírito que beira a meditação zen-budista. Não há espaço para divagar sobre os boletos; o foco é a sobrevivência e o movimento imediato.

Fotografia em ângulo baixo (contra-plongée) de um homem montado em uma motocicleta clássica estacionada em uma via urbana. O primeiro plano destaca em detalhes o escapamento cromado longo, as molas da suspensão e o motor metálico. O motociclista veste calça jeans, jaqueta escura e botas de camurça marrom. Um forte reflexo de sol em formato de estrela brilha no retrovisor, com arranha-céus ao fundo.

​Neste Dia do Motociclista, a reflexão mais profunda que podemos tirar do trânsito caótico é entender o papel vital que esses equilibristas desempenham na nossa comodidade burguesa. Sem eles, as cidades modernas entram em colapso venoso. Eles são as hemácias do sistema urbano, carregando oxigênio em forma de documentos urgentes, remédios de última hora e jantares de sexta-feira pelas artérias entupidas de carros estacionados.

​Da próxima vez que o bi-bi frenético ecoar atrás de você, resista ao impulso de xingar. Dê um pequeno toque no volante para a direita ou para a esquerda, abra caminho. Observe o aceno rápido com o pé ou com a mão de luva gasta — o agradecimento silencioso de quem sabe que o asfalto é um campo de batalha. O Dia do Motociclista é um lembrete para todos nós de que, em um mundo obcecado por segurança e isolamento, ainda existe gente disposta a abraçar o caos de peito aberto e viseira limpa, lembrando a quem está preso na gaiola de vidro que o mundo lá fora ainda tem vento, poeira e liberdade.

Para Hoje:

Leia "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas", de Robert M. Pirsig. Não é apenas um livro sobre consertar motores, mas um tratado profundo sobre como encontrar qualidade e equilíbrio na vida através de uma jornada literal e filosófica sobre duas rodas.


​Lembrou daquele amigo que vive xingando os entregadores ou daquele primo que não larga a moto nem debaixo de granizo? Copie o link aqui em cima e manda no WhatsApp deles. Aposto que a próxima viagem pelo corredor vai ter outro sabor.