Quando a Nostalgia Vira Caso de Polícia: Supermercado nos EUA Volta aos Preços de 1996 (E Por Que Isso Causaria uma Guerra Civil no Brasil)

Um supermercado nos EUA voltou os preços para 1996 em uma ação fofa de aniversário. Descubra por que a mesma promoção no Brasil exigiria intervenção federal, tropas de choque e transformaria senhorinhas pacatas em atletas de MMA na fila do caixa.

Interior de um supermercado Save A Lot durante uma promoção comemorativa de 30 anos. Uma grande faixa colorida ao fundo anuncia "30-Year Celebration! 1996 Prices!" com os preços: bananas a US$ 0,33/lb, coxas de frango a US$ 0,39/lb, leite (galão) a US$ 1,99, ovos (dúzia) a US$ 0,88 e pão a US$ 0,99. À esquerda, uma mulher de cabelo preso, blusa cinza e calça jeans sorri enquanto empurra um carrinho de compras cheio. À direita, um homem de meia-idade com boné azul, máscara abaixada, camisa xadrez e calça verde examina um pacote na seção de carnes refrigeradas. Ao fundo, outros clientes circulam pelo corredor. As prateleiras laterais estão repletas de produtos variados e frutas frescas, como bananas e laranjas, estão expostas no centro do corredor.

Em um cenário de paz, tranquilidade e pássaros cantando na terra do Tio Sam, dois sócios de um supermercado decidiram fazer uma promoção. Melvin Shapiro e David Green, parceiros e operadores da rede varejista Save A Lot nos Estados Unidos, estão comemorando 30 anos desde a abertura de sua primeira loja. E para celebrar esse marco, a dupla teve uma ideia que soa adorável por lá: voltar os preços de diversos produtos para os patamares de 1996.

​Segundo o comunicado oficial da empresa (e mantendo a nossa sobriedade jornalística por um breve instante), a promoção, que vai até 5 de maio em 11 filiais nos estados de Maryland, Pensilvânia e Virgínia Ocidental, traz ofertas que parecem viagem no tempo. Estamos falando de coxinha da asa de frango a US$ 0,39 a libra (o que dá centavos por quilo), cerca de um quilo e meio de bananas por US$ 1, e caixas de macarrão com queijo saindo a três por um dólar. Tudo isso regado a sorteios de churrasqueiras, vale-compras e um evento chique de carnes e frutos do mar vendendo ostras frescas. Uma bela jogada de marketing de relacionamento, certo? Certo.

​Agora, tire esse filtro de filme estadunidense da Sessão da Tarde e traga a mesma manchete para o Brasil. Imagine o letreiro em letras garrafais vermelhas: “Supermercado volta aos preços de 1996”.

Amigos, nós não estaríamos falando de uma campanha publicitária. Estaríamos falando de uma ameaça à segurança nacional, com necessidade de intervenção federal e cobertura ao vivo pelo Globocop.

Entrada de um supermercado Guanabara durante uma promoção de aniversário com preços de 1996. Uma faixa colorida sobre a porta anuncia "Aniversário Guanabara — Preços de 1996 — O Caos Chegou!". Uma enorme multidão tenta sair ao mesmo tempo pela porta de vidro, causando aglomeração e tumulto. Em primeiro plano, um homem de camiseta branca empurra um carrinho de compras repleto de produtos. O chão está coberto de latas, embalagens e frutas espalhadas. Outros carrinhos estão tombados ou atravessados na saída. A cena retrata uma situação de caos causada pela grande demanda dos consumidores atraídos pelos preços promocionais.

​Quem é carioca — ou quem simplesmente tem acesso à internet no mês de outubro — sabe exatamente do que estou falando. Nós temos no nosso calendário não oficial o famoso Aniversário Guanabara, um evento anual que especialistas já consideram um esporte de contato não regulamentado. Se no Guanabara, por causa de um desconto de 30 centavos no leite condensado ou uma promoção de sabão em pó, vemos senhorinhas simpáticas de 70 anos desenvolvendo habilidades de MMA, carrinhos de compras sendo usados como bigas romanas no filme Gladiador e táticas de guerrilha urbana no corredor de laticínios… o que aconteceria se os preços voltassem para o início do Plano Real?

​Se um supermercado brasileiro anunciasse frango e banana a “preços de 1996”, a população simplesmente invadiria o estabelecimento de madrugada. As portas de aço seriam arrombadas como se fossem feitas de papelão. A Polícia Militar e o BOPE teriam que ser acionados não para prender ninguém, mas para formar um cordão de isolamento e garantir a integridade física do gerente do açougue. A disputa por um pacote de macarrão a preço de bala de goma faria os clientes escalarem as prateleiras em uma cena digna do apocalipse zumbi de The Walking Dead.

​Enquanto os simpáticos Melvin e David dão entrevistas nos EUA agradecendo à comunidade e distribuindo brindes pacificamente, no Brasil o Ministério Público já teria entrado com uma liminar para cancelar o evento por risco de colapso estrutural do bairro. A Defesa Civil provavelmente estaria na porta distribuindo capacetes e joelheiras para os clientes.

​No fim das contas, a notícia internacional é um belo exemplo de fidelização de clientes e celebração de três décadas de sucesso no varejo estadunidense. Mas serve também como um lembrete sociológico fortíssimo: os gringos são amadores. Eles simplesmente não têm o preparo físico, a malícia e a técnica necessária para lidar com o verdadeiro caos do varejo que é o brasileiro farejando uma queima de estoque. Parabéns ao Save A Lot, mas aqui no Brasil, essa promoção estaria no Cidade Alerta.


Conhece alguém que tem faixa preta em disputar carrinho em dia de promoção de supermercado? Manda esse texto pra essa pessoa. Ela com certeza vai se identificar e, no fundo, já está aquecendo os ombros para a próxima liquidação.

​Sobreviveu à leitura sem tomar uma cotovelada? Então passa lá no meu Instagram ou no X. Eu prometo que meus stories são bem mais calmos que uma fila de caixa rápido em véspera de feriado prolongado.

Fonte:Save a Lot

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