A Síndrome do Menu de Streaming: O Que os 50 Anos dos Ramones Ensinam Sobre a Nossa Exaustão

Você passa mais tempo escolhendo o que assistir na Netflix do que dura o primeiro álbum dos Ramones. Um desabafo sobre como a vida adulta ficou burocrática e por que a atitude do punk rock é o único antídoto possível para o cansaço moderno.

Homem jovem sorrindo, vestindo camiseta preta da banda Ramones e calça jeans rasgada, inclinado sobre uma mesa de escritório doméstico. Com a mão direita ele cola um post-it amarelo na borda de um monitor exibindo o aplicativo Trello com colunas "To Do", "Doing" e "Done". A mão esquerda repousa sobre um laptop. Ao fundo, um calendário de parede com dias riscados em vermelho e a anotação "Focus on Small Wins" circulada; post-its coloridos com tarefas; um pôster em preto e branco da banda Ramones; e uma guitarra. Na mesa há um caderno aberto com a regra dos 2 Minutos ("If it takes 2 minutes or less, do it now"), uma caneca escrita "Focus Execute Repeat", um temporizador digital marcando 00:38 e tocando "Blitzkrieg Bop" dos Ramones, um cubo mágico, porta-lápis e blocos de post-it.

Outro dia eu me peguei no meio de um colapso nervoso silencioso na cozinha da minha própria casa. O motivo? Eu estava tentando fazer um café. Veja bem, não era um café normal, daqueles que você joga o pó no filtro de papel, derrama água quente e segue com a sua vida mediocremente feliz. Era uma dessas rotinas de barista amador que a internet me convenceu a adotar. Balança de precisão, grãos torrados na encosta de um vulcão inativo na Guatemala, termômetro para garantir que a água estivesse a exatos noventa e dois graus Celsius, e um ritual de pré-infusão que exigia mais foco do que a minha tese de conclusão do mestrado.

​No meio desse processo alquímico exaustivo, enquanto eu esperava os trinta segundos cronometrados para o grão “respirar”, olhei para o teto e pensei: em que momento da história humana nós decidimos que absolutamente tudo precisava ser tão insuportavelmente complicado?

​Essa reflexão sobre a burocracia autoimposta da vida moderna coincidiu com uma data interessante. Estamos celebrando os 50 anos dos Ramones, mais especificamente, meio século desde o lançamento do primeiro álbum dos Ramones. 23 de abril de 1976. Um marco na história do entretenimento que, visto daqui de trás das nossas telas cheias de planilhas e aplicativos de produtividade, parece um delírio coletivo de simplicidade.

​Imagine o cenário. Quatro rapazes do Queens, vestidos com jaquetas de couro que provavelmente nunca viram uma lavanderia, usando jeans rasgados muito antes de isso ser um produto superfaturado em lojas de departamento, e adotando o mesmo sobrenome fictício. Eles entraram em um estúdio e, em questão de dias, gravaram catorze músicas. O primeiro álbum dos Ramones não tem solos de guitarra épicos que duram vinte minutos, não tem arranjos de cordas da orquestra sinfônica de Londres e não tem letras sobre a complexidade da condição humana no período pós-industrial.

​Eles simplesmente cantavam sobre querer cheirar cola, não querer descer para o porão e bater em pirralhos com tacos de beisebol (apenas metaforicamente, espero). E eles faziam isso em canções que, em média, não passavam da marca dos dois minutos e meio.

​O punk rock nasceu não apenas como um gênero musical, mas como uma resposta direta à indulgência excessiva da época. O rock and roll dos anos setenta havia se tornado uma exibição aristocrática de virtuosismo e capas de disco conceituais desenhadas por artistas plásticos renomados. E então, os Ramones apareceram e disseram: “Isso é muito chato. Nós só sabemos três acordes, e vamos tocá-los o mais rápido possível”.

​Avançamos cinco décadas e eu sinto que a nossa rotina diária se tornou o rock progressivo dos anos setenta. Nós perdemos completamente o espírito do punk rock na forma como conduzimos a vida.

​Pense na última vez que você tentou assistir a um filme em uma noite de terça-feira. A experiência moderna de streaming é o oposto conceitual de ouvir os 50 anos dos Ramones. Você senta no sofá, exausto após enviar setenta e quatro e-mails corporativos que poderiam ter sido resolvidos com um joinha, e abre o catálogo. Aí começa a tortura. Você rola a tela para baixo. Rola para o lado. Assiste a trailers automáticos. Lê sinopses que prometem dramas familiares intensos. Troca de aplicativo. Repete o processo.

​Quarenta e cinco minutos depois, o seu jantar já esfriou, a sua vontade de viver já diminuiu e você acaba escolhendo assistir a um episódio de uma série de comédia que você já viu oito vezes.

​Sabe quanto tempo dura o primeiro álbum dos Ramones do início ao fim? Vinte e nove minutos. Em menos tempo do que você leva para decidir o que não vai assistir na Netflix, aqueles quatro caras entregavam o equivalente emocional de um soco na cara, mudavam a história da música, inventavam o punk rock comercial e iam embora comer pizza no Bowery.

​A vida adulta se tornou uma gincana de obstáculos triviais. Para cuidar da própria pele, não basta lavar o rosto; é preciso ter uma rotina de skincare de onze passos que envolve ácidos com nomes impronunciáveis e séruns extraídos de algas noturnas. Para fazer exercícios, não basta correr na rua; é preciso assinar um aplicativo, comprar um relógio que monitora o seu oxigênio, a qualidade do seu sono e julga silenciosamente a sua frequência cardíaca em repouso. Para interagir romanticamente, desenvolvemos terminologias que fariam um advogado recuar: ghosting, gaslighting, situationships, orbiters.

​Nós burocratizamos o ato de existir.

​Comemorar os 50 anos dos Ramones hoje não é apenas um ato de nostalgia roqueira para quem usa camisetas pretas desbotadas. É um chamado desesperado para a simplificação. O primeiro álbum dos Ramones é um manifesto sobre como a execução imperfeita sempre será superior à inércia perfeita.

​Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy não esperaram dominar a teoria musical para começar a banda. Eles não esperaram juntar dinheiro para comprar o equipamento mais avançado do mercado. Eles nem sequer esperaram aprender a afinar os instrumentos direito, se formos ser totalmente honestos. Eles tinham uma ideia, sabiam contar até quatro — “1, 2, 3, 4!” — e simplesmente começaram. A atitude punk rock é, em sua essência, a recusa em esperar pela permissão do mundo para fazer alguma coisa.

​E é exatamente isso que precisamos resgatar na nossa rotina. O espírito do punk rock aplicado às pequenas coisas. Aquele e-mail passivo-agressivo que você está reescrevendo há meia hora tentando soar profissional? Apague tudo e mande um “Recebido, resolvemos amanhã” direto e reto. Três acordes verbais. Aquela vontade de começar um projeto pessoal que você está adiando porque não tem a câmera certa, o software certo ou a iluminação certa? Pegue o celular, faça mal feito, faça barulhento, mas faça.

​O perfeccionismo é o rock progressivo da mente. Ele cria ilusões de grandeza que nunca se concretizam porque o processo de preparação é exaustivo demais. A simplicidade, por outro lado, é o punk rock da alma. Ela te coloca em movimento.

​Então, ao lembrar dos 50 anos dos Ramones, faça um favor a si mesmo. Olhe para a sua rotina e encontre os excessos. Elimine as etapas inúteis. Pare de pesar os grãos de café com a precisão de um traficante de especiarias e apenas faça a bebida. Reduza o ruído. Pare de hiperanalisar cada decisão como se você estivesse negociando a paz mundial. A vida fica muito mais tolerável quando você adota a mentalidade do primeiro álbum dos Ramones: identifique o que você quer dizer, diga rápido, alto, sem rodeios, e saia do palco antes que as pessoas tenham tempo de ficar entediadas.

​A vida é curta demais para solos de guitarra infinitos. Hey ho, let’s go!

​Para Hoje

  • Para Ouvir: Obviamente, o “Ramones” (1976). Coloque o disco inteiro para tocar enquanto você faz a faxina da casa. Eu garanto que você vai limpar aquele banheiro com uma fúria produtiva e terminar antes mesmo de chegar na faixa dez. É o som da eficiência ruidosa.
  • Para Assistir: O documentário “End of the Century: The Story of the Ramones” (2003). A prova definitiva de que você não precisa ter a vida resolvida, um plano de cinco anos ou ser um gênio da inteligência emocional para criar algo histórico. É reconfortante ver quatro pessoas com habilidades sociais completamente questionáveis indo lá e fazendo acontecer. Excelente para assistir naquelas noites em que a síndrome do impostor grita mais alto que a televisão.
  • Para Ler: “Mate-me Por Favor” (Please Kill Me), de Legs McNeil e Gillian McCain. A história oral não censurada do punk. Esqueça temporariamente os livros de autoajuda corporativa e as biografias de CEOs que acordam às quatro da manhã para tomar banho de gelo. Aqui você vai ler fofocas caóticas sobre jovens em Nova York tomando decisões terríveis de vida, mas com uma dose de autenticidade crua que faz qualquer reunião de alinhamento no Zoom parecer o fundo do poço da experiência humana.

Bônus de Sobrevivência Cotidiana

Homem jovem com expressão animada e boca aberta, vestindo camiseta preta da banda Ramones e calça jeans rasgada, em pé diante de uma mesa de escritório doméstico. Com a mão esquerda digita em um laptop; na mão direita segura folhas de papel e uma caneta. À sua frente, no chão, há um toca-discos com um vinil em execução. Na mesa ao fundo, um relógio digital marcando 1:30, porta-lápis com canetas e papéis. Na parede, um calendário do mês de Abril com vários dias marcados com X em vermelho. À direita, um quadro de cortiça com um cartão branco intitulado "Tarefas de dois minutos: faça agora!" listando: Enviar e-mail, Organizar papéis, Marcar compromisso e Verificar brochuras finalizadas.
A regra dos 2 minutos
Homem jovem sorrindo, fotografado de corpo inteiro em frente a um espelho de porta de guarda-roupa. Ele veste camiseta preta da banda Ramones com o emblema circular clássico, calça jeans azul com rasgos acentuados nas coxas e joelhos, e tênis All Star preto com cadarços brancos. Com a mão direita segura um smartphone preto fazendo a selfie; com a mão esquerda, erguida na altura do ombro, segura uma jaqueta jeans escura dobrada. Ao fundo, visível pelo reflexo do espelho: um quarto arrumado com sofá cinza, tapete bege, piso de madeira clara, janela com luz natural à esquerda, e uma estante aberta à direita com roupas penduradas em araras e peças dobradas sobre prateleiras de madeira.
O Guarda-roupa do Joey
Homem jovem sentado em uma cadeira de escritório industrial, sorrindo levemente e olhando para o lado. Ele veste camiseta preta da banda Ramones com os nomes dos integrantes no emblema circular e calça jeans rasgada. À sua frente há uma mesa escura com um laptop aberto exibindo um e-mail curto com assunto "Quick update" e o texto "Hi team, Here's the update. Thanks, - M", ao lado de um smartphone em suporte vertical com cronômetro mostrando 00:30 e ícone de gravação, e uma caneca preta escrita "Gabba Gabba Hey". Na parede ao fundo, frase em letras grandes: "If it takes longer than a Ramones album, it should be an email" — com as palavras "Ramones" e "email" destacadas em vermelho. Acima da mesa, um relógio analógico de parede grande mostrando aproximadamente 3h25. À direita, um quadro emoldurado em preto-e-branco com a capa do álbum dos Ramones. Ao fundo à esquerda, placa escura com os dizeres "Work Sucks" em letras brancas.
A Reunião Punk
Homem jovem sentado com olhos fechados em postura de meditação ou concentração, com as mãos apoiadas sobre uma mesa rústica escura. Ele veste camiseta preta desgastada da banda Ramones e calça jeans rasgada. Sobre a mesa, um smartphone exibe a tela do aplicativo "Speednet Internet" com o botão laranja "Cancel Subscription"; ao lado, um caderno aberto com a lista manuscrita "Pre-Show Ritual: 1. Focus, 2. Breath, 3. Intent, 4. Execute — Hey Ho Let's Go!"; e uma caneca preta com o emblema dos Ramones. À direita, um porta-lápis metálico com canetas e uma pilha de livros, o de cima com o título "Ramones". Na parede ao fundo, quadro-negro com a inscrição luminosa "1-2-3-4" à direita, e à esquerda uma colagem densa de pôsteres e adesivos dos Ramones. Na lateral direita, texto parcialmente visível: "Loud Fast Loyal".
O Mantra 1-2-3-4

​Guia Prático: Como Aplicar o Método Ramones na Sua Rotina Burocrática

​Se os 50 anos dos Ramones nos ensinaram algo, é que a velocidade resolve 90% dos problemas. Aqui está o seu checklist para simplificar a vida usando a filosofia de três acordes:

  • A Regra dos Dois Minutos: Se uma tarefa leva menos de dois minutos para ser feita (o tempo exato de “Blitzkrieg Bop”), faça agora. Não coloque na agenda. Não crie um card no Trello. Apenas ataque.
  • O Guarda-Roupa do Joey: Você não precisa de uma crise existencial toda manhã na frente do espelho. Adote um uniforme não-oficial. Calça jeans, camiseta preta, jaqueta (opcional, dependendo de quão agressivo o ar-condicionado do seu escritório é).
  • A Reunião Punk: Se a reunião não pode ser resolvida em menos de meia hora (a duração total do primeiro álbum dos Ramones), ela deveria ser um e-mail. Se o e-mail tem mais de três parágrafos, ele deveria ser um áudio de trinta segundos.
  • O Mantra 1-2-3-4: Antes de entrar em uma situação estressante (como tentar cancelar a assinatura da sua internet ou pedir reembolso num aplicativo de entrega), respire fundo, conte até quatro mentalmente com uma voz nova-iorquina rouca, e vá direto ao ponto.

​Se você também está cansado de rotinas de café que demoram mais que um álbum de punk rock, mande esse texto para aquele seu amigo que passa quarenta minutos rolando o catálogo da Netflix sem escolher nada. Ele precisa dessa intervenção.

​Quer mais devaneios não solicitados sobre como a vida moderna é uma piada de mau gosto? Me siga nas redes sociais [Inserir Link]. Eu prometo ser breve e não fazer solos virtuoses de conteúdo.

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