A Síndrome de Robinson Crusoe e o Clássico Que Gentrificou a Própria Ilha

Fui reler a famosa história do náufrago para me sentir culto num domingo à tarde e descobri que, na verdade, o protagonista foi o primeiro caso registrado de gentrificação de ilha deserta e trabalho não remunerado.

Gravura em preto e branco no estilo de ilustração antiga, possivelmente do século XVIII. Um homem barbudo está de pé em posição frontal, descalço, vestindo roupas feitas de peles de animais — uma espécie de casaco e calças curtas confeccionados com pele bruta. Ele usa um chapéu de abas largas. Com o braço esquerdo, segura dois mosquetes ou espingardas encostados no ombro; na cintura, carrega um cantil ou frasco arredondado preso ao cinto. Ao fundo, à esquerda, é possível ver um veleiro no mar e uma paisagem costeira com colinas e uma pequena cerca ou estrutura à direita. O céu apresenta nuvens densas.
Original de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, lançado em 25 de abril de 1719

Tem dias em que a gente acorda com uma vontade incontrolável de ser uma pessoa melhor. Você faz um café coado, arruma a cama e decide que não vai passar as próximas três horas rodando o feed de vídeos curtos vendo pessoas reformando banheiros na Ásia. Não, hoje você vai consumir cultura. Hoje você vai mergulhar nos clássicos da literatura.

​Foi num desses surtos de intelectualidade estética que eu decidi reler Robinson Crusoe. Se você fugiu das aulas de literatura, eu faço o resumo: é a história de um jovem inglês do século dezoito que decide ir para o mar, o navio afunda, e ele passa quase três décadas isolado numa ilha no Caribe. A premissa é fantástica. Você imagina uma narrativa visceral de sobrevivência, um homem contra a natureza selvagem, uma jornada de autoconhecimento profundo.

​Mas a verdade, meus caros, é que ler Robinson Crusoe com a mentalidade de hoje é uma experiência bizarra. É como assistir à primeira temporada daquele reality show antigo e pensar: meu Deus, como deixaram isso ir ao ar? Porque se a gente analisar o comportamento do nosso protagonista com a lupa da vida moderna, Robinson Crusoe envelheceu mal. Muito mal.

​Vamos começar pelo básico. Ele chega na ilha e, em vez de apenas focar em não ser devorado por alguma criatura ou morrer de febre, ele imediatamente adota a postura de um síndico de prédio. Ele não está apenas tentando sobreviver; ele está tentando dominar a ilha. Ele constrói cercas, declara-se rei daquele pedaço de terra e age com a arrogância de quem acabou de pagar a primeira parcela de um financiamento imobiliário.

Fotografia hiperrealista de um homem de meia-idade, de barba castanha e expressão séria, em pé sobre terreno rochoso e árido à beira-mar. Ele veste roupas inteiramente confeccionadas com peles de animais — casaco, calças curtas e cinto de couro — e usa um chapéu cônico de palha ou fibra trançada. Está descalço. Segura dois mosquetes apoiados no ombro esquerdo e carrega um cantil esférico de metal envelhecido preso ao cinto. Ao fundo, à esquerda, um veleiro antigo navega em mar agitado sob céu nublado com nuvens dramáticas. À direita, vegetação rasteira e uma cerca de madeira compõem a paisagem costeira. No primeiro plano, uma pequena planta cresce entre a terra seca.
transforme-se em Robinson Crusoe: clique na imagem para ver o prompt

​É aqui que a história começa a ficar irritantemente familiar. Você já encontrou o Robinson Crusoe moderno. Ele é aquele cara na cafeteria que chega às oito da manhã, escolhe a maior mesa comunitária do salão e espalha um notebook, um iPad, um fone de ouvido gigante, uma mochila e um copo de água suada. Ele colonizou a mesa. Ele age como se o espaço público fosse uma extensão do próprio ego. Ele não precisa de todo aquele espaço para sobreviver, mas a necessidade de demarcar território é mais forte que ele.

​Mas o grande problema de como Robinson Crusoe envelheceu mal não está apenas no seu complexo de corretor de imóveis solitário. A situação atinge o pico da falta de noção quando, anos depois, ele finalmente encontra outro ser humano.

​Imagine o cenário. Você está sozinho há anos. Você vê pessoas de uma tribo vizinha prestes a cometer um sacrifício humano. Você intervém, atira, salva a vida de um rapaz. O que um ser humano normal e equilibrado faria? Teria um colapso de alegria por ter alguém para conversar, aprenderia sobre os costumes do cara, tentaria criar uma aliança mútua.

​O que Robinson Crusoe faz? Ele salva o cara e imediatamente o contrata como estagiário não remunerado.

​E não para por aí. Como nosso amigo europeu não tem paciência para o Duolingo, ele não tenta aprender o nome verdadeiro do rapaz. Ele simplesmente olha para a cara do sujeito salvo e diz: “Hoje é sexta-feira. Vou te chamar de Sexta-Feira”.

​Faça o exercício mental de trazer isso para os dias de hoje. Imagine que você está engasgando com um pedaço de pão de queijo na padaria. Alguém faz a manobra de Heimlich em você. Você, chorando de gratidão, vai agradecer o seu herói e ele diz: “De nada. A partir de hoje, seu nome é Terça-Feira, você vai falar apenas o meu idioma, esquecer tudo o que você acredita e carregar minha mochila até o fim da vida”. É inaceitável. Você chamaria a polícia.

​É por isso que as pessoas dizem que esse pilar dos clássicos da literatura envelheceu mal. A obra é o puro suco do pensamento colonial disfarçado de aventura de escoteiro. Crusoe não queria companhia, ele queria um subordinado. Ele impôs a própria língua, a própria religião e os próprios hábitos em um lugar que nem era dele, ignorando completamente que o “Sexta-Feira” tinha uma cultura inteira antes de ser batizado com um dia da semana.

​A reflexão genial escondida nessa loucura toda é que a “Síndrome de Robinson Crusoe” não ficou presa no século dezoito. Nós vemos esse padrão o tempo todo. O complexo de salvador, a necessidade de impor o nosso estilo de vida como o único correto, a mania de transformar as pessoas ao nosso redor em coadjuvantes da nossa própria narrativa genial.

​Pense no movimento dos nômades digitais que se mudam para cidades mais baratas no exterior e reclamam que os moradores locais não falam o idioma deles. Pense no chefe de startup que fala que a equipe é “uma grande família”, mas trata todo mundo como se fossem nativos que devem reverenciar a mente brilhante dele. São todos herdeiros diretos do náufrago mais arrogante dos clássicos da literatura.

​No fundo, a gente percebe que o que envelheceu mal não foi apenas o livro. O que envelheceu mal foi a ideia de que o sucesso e a sobrevivência justificam atropelar o outro. Robinson Crusoe é um espelho desconfortável. Ele nos mostra como é fácil confundir “prover para si mesmo” com “passar por cima de todo o resto”.

​Se algum dia você for parar numa ilha deserta, lembre-se: o verdadeiro teste de sobrevivência não é fazer fogo com duas pedras. O verdadeiro teste é não se transformar no pior vizinho do mundo só porque não tem ninguém olhando. E pelo amor de Deus, se encontrar alguém por lá, pergunte o nome da pessoa antes de olhar para o calendário.

​Para Hoje

  • Para assistir: Em vez de tentar romantizar clássicos da literatura que defendem estagiários não remunerados, vá assistir à série “The White Lotus”. É a representação moderna e perfeita de pessoas ricas e privilegiadas indo para ilhas paradisíacas e tratando os funcionários locais como propriedades secundárias de suas próprias crises existenciais. O espírito de Crusoe vive naqueles resorts.
  • Para Ler: “Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, de Ottessa Moshfegh. A história de uma protagonista que decide se isolar do mundo no próprio apartamento não para ser produtiva, mas apenas para dormir um ano inteiro. É o oposto absoluto da proatividade tóxica do nosso náufrago. Muito mais relacionável.
Fotografia hiperrealista de um homem jovem, de rosto barbeado e aparência atlética, em pé sobre terreno rochoso e árido à beira-mar. Ele veste roupas inteiramente feitas de peles de animais — casaco longo, calças curtas e cinto de couro — e usa um chapéu cônico de palha. Está descalço. Segura dois mosquetes apoiados no ombro esquerdo e carrega um cantil esférico escuro preso ao cinto. Ao fundo, à esquerda, um veleiro antigo navega em mar revolto sob céu com nuvens volumosas. À direita, vegetação baixa e uma cerca de madeira emolduram a paisagem costeira. No primeiro plano, uma pequena planta cresce entre a terra seca e pedregosa.
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Achou esse texto parecido com aquele seu amigo que foi fazer um retiro no mato e voltou se achando o dono da natureza? Manda o link para ele. Só não me responsabilizo pelo clima no próximo churrasco.

Eu prometo que se a gente naufragar juntos eu te chamo pelo seu nome de batismo. Me segue nas redes sociais para mais pensamentos intrusivos e crônicas sobre como o mundo anda esquisito.

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