
Tem dias em que a gente acorda com uma vontade incontrolável de ser uma pessoa melhor. Você faz um café coado, arruma a cama e decide que não vai passar as próximas três horas rodando o feed de vídeos curtos vendo pessoas reformando banheiros na Ásia. Não, hoje você vai consumir cultura. Hoje você vai mergulhar nos clássicos da literatura.
Foi num desses surtos de intelectualidade estética que eu decidi reler Robinson Crusoe. Se você fugiu das aulas de literatura, eu faço o resumo: é a história de um jovem inglês do século dezoito que decide ir para o mar, o navio afunda, e ele passa quase três décadas isolado numa ilha no Caribe. A premissa é fantástica. Você imagina uma narrativa visceral de sobrevivência, um homem contra a natureza selvagem, uma jornada de autoconhecimento profundo.
Mas a verdade, meus caros, é que ler Robinson Crusoe com a mentalidade de hoje é uma experiência bizarra. É como assistir à primeira temporada daquele reality show antigo e pensar: meu Deus, como deixaram isso ir ao ar? Porque se a gente analisar o comportamento do nosso protagonista com a lupa da vida moderna, Robinson Crusoe envelheceu mal. Muito mal.
Vamos começar pelo básico. Ele chega na ilha e, em vez de apenas focar em não ser devorado por alguma criatura ou morrer de febre, ele imediatamente adota a postura de um síndico de prédio. Ele não está apenas tentando sobreviver; ele está tentando dominar a ilha. Ele constrói cercas, declara-se rei daquele pedaço de terra e age com a arrogância de quem acabou de pagar a primeira parcela de um financiamento imobiliário.

É aqui que a história começa a ficar irritantemente familiar. Você já encontrou o Robinson Crusoe moderno. Ele é aquele cara na cafeteria que chega às oito da manhã, escolhe a maior mesa comunitária do salão e espalha um notebook, um iPad, um fone de ouvido gigante, uma mochila e um copo de água suada. Ele colonizou a mesa. Ele age como se o espaço público fosse uma extensão do próprio ego. Ele não precisa de todo aquele espaço para sobreviver, mas a necessidade de demarcar território é mais forte que ele.
Mas o grande problema de como Robinson Crusoe envelheceu mal não está apenas no seu complexo de corretor de imóveis solitário. A situação atinge o pico da falta de noção quando, anos depois, ele finalmente encontra outro ser humano.
Imagine o cenário. Você está sozinho há anos. Você vê pessoas de uma tribo vizinha prestes a cometer um sacrifício humano. Você intervém, atira, salva a vida de um rapaz. O que um ser humano normal e equilibrado faria? Teria um colapso de alegria por ter alguém para conversar, aprenderia sobre os costumes do cara, tentaria criar uma aliança mútua.
O que Robinson Crusoe faz? Ele salva o cara e imediatamente o contrata como estagiário não remunerado.
E não para por aí. Como nosso amigo europeu não tem paciência para o Duolingo, ele não tenta aprender o nome verdadeiro do rapaz. Ele simplesmente olha para a cara do sujeito salvo e diz: “Hoje é sexta-feira. Vou te chamar de Sexta-Feira”.
Faça o exercício mental de trazer isso para os dias de hoje. Imagine que você está engasgando com um pedaço de pão de queijo na padaria. Alguém faz a manobra de Heimlich em você. Você, chorando de gratidão, vai agradecer o seu herói e ele diz: “De nada. A partir de hoje, seu nome é Terça-Feira, você vai falar apenas o meu idioma, esquecer tudo o que você acredita e carregar minha mochila até o fim da vida”. É inaceitável. Você chamaria a polícia.
É por isso que as pessoas dizem que esse pilar dos clássicos da literatura envelheceu mal. A obra é o puro suco do pensamento colonial disfarçado de aventura de escoteiro. Crusoe não queria companhia, ele queria um subordinado. Ele impôs a própria língua, a própria religião e os próprios hábitos em um lugar que nem era dele, ignorando completamente que o “Sexta-Feira” tinha uma cultura inteira antes de ser batizado com um dia da semana.
A reflexão genial escondida nessa loucura toda é que a “Síndrome de Robinson Crusoe” não ficou presa no século dezoito. Nós vemos esse padrão o tempo todo. O complexo de salvador, a necessidade de impor o nosso estilo de vida como o único correto, a mania de transformar as pessoas ao nosso redor em coadjuvantes da nossa própria narrativa genial.
Pense no movimento dos nômades digitais que se mudam para cidades mais baratas no exterior e reclamam que os moradores locais não falam o idioma deles. Pense no chefe de startup que fala que a equipe é “uma grande família”, mas trata todo mundo como se fossem nativos que devem reverenciar a mente brilhante dele. São todos herdeiros diretos do náufrago mais arrogante dos clássicos da literatura.
No fundo, a gente percebe que o que envelheceu mal não foi apenas o livro. O que envelheceu mal foi a ideia de que o sucesso e a sobrevivência justificam atropelar o outro. Robinson Crusoe é um espelho desconfortável. Ele nos mostra como é fácil confundir “prover para si mesmo” com “passar por cima de todo o resto”.
Se algum dia você for parar numa ilha deserta, lembre-se: o verdadeiro teste de sobrevivência não é fazer fogo com duas pedras. O verdadeiro teste é não se transformar no pior vizinho do mundo só porque não tem ninguém olhando. E pelo amor de Deus, se encontrar alguém por lá, pergunte o nome da pessoa antes de olhar para o calendário.
Para Hoje
- Para assistir: Em vez de tentar romantizar clássicos da literatura que defendem estagiários não remunerados, vá assistir à série “The White Lotus”. É a representação moderna e perfeita de pessoas ricas e privilegiadas indo para ilhas paradisíacas e tratando os funcionários locais como propriedades secundárias de suas próprias crises existenciais. O espírito de Crusoe vive naqueles resorts.
- Para Ler: “Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, de Ottessa Moshfegh. A história de uma protagonista que decide se isolar do mundo no próprio apartamento não para ser produtiva, mas apenas para dormir um ano inteiro. É o oposto absoluto da proatividade tóxica do nosso náufrago. Muito mais relacionável.

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