
Existe um momento de pura tensão na vida adulta contemporânea que supera qualquer thriller de suspense do cinema. É aquela fração de segundo em que você encosta o carro no posto, abaixa o vidro, e o frentista, com a naturalidade de quem pergunta as horas, lança a frase mais assustadora do nosso vocabulário: “Completa, chefe?”.
Eu não sei você, mas eu sinto um leve suor frio. Eu respiro fundo, calculo mentalmente o limite do meu cartão de crédito, lembro das contas que vencem no dia cinco e, com um sorriso amarelo, aceno com a cabeça. Enquanto a bomba começa a trabalhar, os números do mostrador disparam em uma dança caótica. É hipnótico. É trágico. E é ali, sentindo aquele cheiro inconfundível de gasolina, que eu me pego pensando na monumental ironia que é a história dos combustíveis no Brasil.
Imagine a seguinte situação banal. Você mora em uma casa confortável. Um belo dia, cavando no quintal para plantar um pé de jabuticaba, você encontra um poço de ouro líquido. Você está rico. O seu futuro está garantido. Só que, em vez de comprar as ferramentas, extrair o ouro e usar o dinheiro para reformar a casa e educar os seus filhos, você toma uma decisão curiosa. Você convida um vizinho muito rico para morar na sua sala, deixa ele extrair o ouro, entrega tudo na mão dele e, no fim do dia, compra de volta um pedacinho daquele mesmo ouro por um preço dez vezes mais caro, porque, segundo ele, “é o preço do mercado”.
Se você fizesse isso na sua vida pessoal, seus amigos chamariam a interdição psiquiátrica. Mas, em escala macroeconômica, parece que esse tem sido o roteiro do nosso país. A nossa relação com a soberania nacional virou uma espécie de comédia de erros, onde nós somos os donos da casa que insistem em pagar aluguel.
E nem sempre foi assim. Para entender essa loucura, precisamos dar um passo atrás na história. Mais precisamente, para o dia 29 de abril de 1938.
Foi nesse dia, com uma canetada de Getúlio Vargas, que o Brasil acordou e disse: “Espera aí, esse quintal é nosso”. A criação do Conselho Nacional do Petróleo não foi apenas um ato burocrático. Foi uma declaração de intenções. Em um mundo que já caminhava para a guerra e que se movia a óleo, entender que os combustíveis no Brasil eram uma questão de segurança não era um luxo, era uma questão de sobrevivência. Foi a semente que germinou a Petrobras, o orgulho de batermos no peito e dizermos que fomos buscar o impossível em águas profundas.
Naquela época, entendia-se que a soberania nacional não era uma palavra bonita para enfeitar discursos de formatura. Era a estrutura de aço que impedia o país de desmoronar diante de interesses alheios. Ter controle sobre a própria energia era ter o controle sobre o próprio destino.
Mas a história é teimosa e a memória é curta. Se dependesse de uma certa visão de mundo, de uma direita que trata o Estado brasileiro como uma loja de departamentos em liquidação, nós já teríamos entregado as chaves do posto de gasolina há muito tempo. O fetiche pela venda do patrimônio público é uma doença curiosa. A narrativa de que o que é nosso é ineficiente e o que vem de fora é mágico quase nos fez perder totalmente a nossa soberania nacional sobre a matriz energética tradicional. Os combustíveis no Brasil passaram a ser tratados não como um insumo estratégico para fazer a dona de casa cozinhar ou o caminhoneiro cruzar o país, mas como uma mera mercadoria na roleta financeira de acionistas que nem sabem onde o Brasil fica no mapa.

E quando você acha que nós, finalmente, aprendemos a lição com a dolorosa conta que pagamos nas bombas dos postos, a realidade vem e nos dá uma rasteira. O mundo girou. O petróleo, aos poucos, começa a ceder espaço para a nova fronteira. A transição energética chegou. Os carros serão elétricos, as matrizes serão verdes, o futuro é tecnológico. E o que nós fazemos? O exato mesmo erro, com uma roupa nova.
De repente, as atenções globais se voltam para um novo tesouro: os minerais essenciais para essa transição. É aqui que entra o caso absurdo das terras raras em Minas Gerais.
As terras raras não são um punhado de areia bonitinha. São a espinha dorsal do século vinte e um. É o que faz o seu celular funcionar, é o que faz a turbina eólica girar, é o motor do carro elétrico. É o novo petróleo. E, em vez de olharmos para as terras raras em Minas Gerais e pensarmos “ótimo, agora vamos liderar a nova revolução industrial”, o que está acontecendo? A velha e boa liquidação de garagem.
Estamos entregando a nossa soberania nacional também para as novas matrizes energéticas. Estamos permitindo que o nosso subsolo seja raspado para que outros países desenvolvam a tecnologia, fabriquem os produtos e, daqui a cinco anos, nos vendam um smartphone ou um painel solar pelo triplo do preço. É o vizinho cavando o nosso quintal novamente, mas agora ele está levando lítio e nióbio.
É exaustivo ser brasileiro e ter que explicar o óbvio. A entrega das terras raras em Minas Gerais é a repetição de um trauma. Nós somos o país das oportunidades perdidas, o gigante que sofre de síndrome de vira-lata crônica. A soberania nacional não deveria ser um conceito abstrato que a gente lembra apenas no feriado de sete de setembro.
Soberania nacional é o preço do botijão de gás. É a estabilidade dos combustíveis no Brasil. É garantir que a riqueza gerada pelas terras raras em Minas Gerais fique em Minas Gerais, se transforme em indústria, em patentes, em engenharia nacional, e não apenas em poeira deixada para trás enquanto o lucro cruza o oceano em um navio de carga.
Da próxima vez que você for ao posto e o frentista perguntar se é para completar, olhe bem para os números. Aquilo não é apenas inflação ou crise global. Aquilo é o custo de não levarmos a nossa própria casa a sério. Que o dia 29 de abril sirva para nos lembrar que já fomos capazes de pensar grande. Resta saber se, diante do novo mundo que se desenha, nós seremos os donos do nosso destino ou apenas os inquilinos que limpam o chão enquanto os outros dão a festa.
Para Hoje:
A recomendação de hoje não é um filme ou série gringa, mas um exercício de brasilidade pura. Assista “O Auto da Compadecida”. Preste atenção no João Grilo. Em um país que costuma abaixar a cabeça para os poderosos (sejam eles coronéis locais ou grandes corporações gringas), nós precisamos recuperar a astúcia, a inteligência e a ousadia de quem sabe que, no fundo, a única saída é usar a cabeça a nosso favor. O Brasil precisa de menos submissão corporativa e muito mais energia de João Grilo na hora de negociar os nossos recursos.
Esse texto fez você rir de nervoso ou suspirar de exaustão? Mande para aquele seu amigo que também sofre toda vez que vai abastecer o carro. Quem sabe juntos a gente não começa a entender o valor do nosso próprio quintal.
Para mais divagações sobre como a macroeconomia arruína a nossa paz de espírito no dia a dia, me acompanhe por lá. Prometo ironia e café forte em doses diárias.
